segunda-feira, 29 de junho de 2009

O sublime

Em que pese a empatia comovente quando me cobra que habilite o cheque especial, desconfio que a funcionária do Bradesco não me ama de verdade. Mas talvez eu seja apenas um ingrato, afinal o banco é atualmente quem mais me manda cartas pelo correio. Tudo bem, elas não chegam em papel de carta perfumado como o que usava nas declarações de amor do curso de alfabetização. Ainda assim são cartas. Epístolas em papel reciclado, já é alguma coisa. Elas me chegam todos os meses e eu não me dou ao trabalho de respondê-las! Talvez eu seja um sonso.

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Talvez eu seja um utópico, um poeta frustrado, um saudosista de um tempo onde era possível contemplar pelo menos umas poucas coisas boas da vida sem ter que coçar o bolso. Mas não acho que esteja tudo perdido. Não precisamos fugir em massa para Never Land. Não enquanto a Babilônia, esta terra arrasada, ainda puder nos propiciar o pôr do sol gratuito no Arpoador e um punhado de laços de afinidades alheios ao "fetichismo da mercadoria", conceito do Marx que me explicaram melhor hoje.

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Eu ontem eu tive insônia. Dormi 1h e acordei às 4h30 com ideias meio confusas, ainda sem discernir muito bem sonho e realidade. Eu não conseguia parar de pensar que havia esquecido um aniversário importante (sabe se lá por que!) e, para tirar a dúvida, fui abrir o meu e-mail. E, neste estado onírico, encontrei o estranho e terapêutico depoimento sobre mim feito pela querida Mariana Moura.

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A descrição não corresponde 100% à auto-imagem que eu costumo conceber. Provavelmente também não coaduna com o julgamento de outros sobre mim. Mas isso não importa, afinal, não se trata de um espelho, e sim de um olhar. E não é qualquer olhar. É o de uma pessoa que, mesmo me conhecendo há não mais que seis meses, registra meus vícios, virtudes, manias, idiossincrasias e "infantilidade" - como ela destaca - com um conhecimento de causa singular, fruto de sua rara sensibilidade.

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O valor do depoimento está em ser uma impressão subjetiva, com distorções, e não uma reprodução mecânica, fidedigna. Nele me vi exposto em carne viva. A vontade era a de imprimir o texto, fazer um barquinho de papel e lançar num rio. Por que? Talvez estivesse imbuído do espírito de quem atira mensagens em garrafas no mar ou sondas com fotos e músicas da terra às últimas fronteiras do sistema solar. Queria mostrar que, de alguma maneira, podemos nos entender. E assim não estamos sós.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diploma e mercado jornalístico

Eu me questiono desde a semana passada por que para exercer o jornalismo o diploma é prescindível e no Direito não. Se um físico nuclear pode fechar uma edição de jornal, por que não pode estudar a constituição, o código do consumidor, o código penal ou leis ordinárias e se tornar um bom advogado? É perfeitamente plausível que uma pessoa qualquer seja aprovada num concurso para juiz sem ter estudado Direito.

Tenho colegas especializados em cobrir temas relacionado à Justiça. Certamente já aprenderam na prática a diferença entre agravo de instrumento, embargos infringentes, mandado de segurança e habeas-corpus. Não podem eles, mesmo com o conhecimento técnico necessário, obter um registro da OAB?
O mais chocante da decisão do Supremo é o fato de ela ter sido tomada em total descolamento da realidade, evidenciando desconhecimento absoluto do mercado do jornalismo. É surrealista que se esteja discutindo a obrigatoriedade do diploma e não da carteira assinada, do pagamento de horas extras, do adicional noturno, da folga após plantões de fim de semana e outros ítens raros nas redações hoje.

Se é para entrar de supetão na nossa seara por que não discutir, ainda, a tendência ao monopólio na grande mídia? As propriedades cruzadas de meios de comunicação? Os modelos de concessão de rádio e televisão? O coronelismo eletrônico? A distribuição de verbas publicitárias das estatais. Pasmem, senhores. Estas são discussões que você encontra apenas nas faculdades de comunicação, agora enfraquecidas substancialmente pela decisão do STF. Decisão esta que prima pela visão de jornalismo não como uma atividade crítica e autorreflexiva, mas como um ofício ao qual "saber escrever" é condição suficiente.

Vamos adiante, falemos um pouco mais sobre o minúsculo mercado do jornalismo. Hoje, fora as assessorias de imprensa, que empregam pelo menos 60% dos profissionais - as redações são quase uma comunidade de maçons, onde todo mundo que faz rádio rádio, tv e jornal se conhece. E elas encolhem a cada dia, com demissões massivas e extinção de funções como copidesque e redator.

De quem fica nas redações, exige-se cada vez mais a chamada "sinergia", ou seja, não basta apurar informações e escrever; é preciso produzir vídeo, mandar mensagem pro twitter, fazer foto, passar retorno por telefone, atualizar blog... É preciso, em suma, ter mais braços que Ganesh para segurar ao mesmo tempo bloco, caneta, gravador, câmera, celular... Você acha que isso não prejudica a qualidade do nosso trabalho? Pois quando o texto sai ruim, a culpa, na avaliação dos leitores, é toda do repórter.

A relação de trabalho já é precária. A maisvalia é absoluta e implantar controle de ponto para que as empresas paguem hora extra é uma tarefa hercúlea. As demissões em massa e sem pagamento dos direitos devidos são constantes, assim como a insegurança que delas deriva. E agora o STF ainda acaba com a reserva de mercado, enfraquecendo o sindicato e o poder de barganha.
E, por fim, me questiono: a quem interessa a perda de prestígio das universidades, que sistematizam os conhecimentos teóricos, éticos e técnicos da profissão?
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OBS: Por coincidencia, vi há pouco os mesmos argumentos serem usados no excelente artigo de Jorge Fernando dos Santos no Observatório da Imprensa (clique para ler).