sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Rio, 27/12/2017

ESCOTILHA

Dia de encontrar velhos amigos
com novas ideias e dilemas
-o meu tempo sempre insuficiente para participá-los

Entre o barro original e o calvário,
a urgência do homem na guerra

Estou mais velho, não me entrego
Deslizo nas mucosas da  cidade
nessa peneira do passado que é o presente.
Meu corpo político também se assenta
entre a consciência química e o ser domesticado

Amanhã será novamente
dia de fazer as malas.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Retirantes

As folhas secaram
mas o sangue 
ainda corre 
nas veias.
A fé e fogo
as mãos 
moldam 
no barro
uma cidade.
Pedras batidas,
pregos virados,
correntes do passado.
Na pisada, no pife,
no bate-estaca pesado.
O batente cria a sombra
nas ruas por onde passam 

os indiferentes 
apressados



domingo, 26 de novembro de 2017

Não pode mais dizer
Que não se arrepende de nada
Após ter sido levado
Em tanta correnteza
Nessa mudança
Que não cessa de sair de casa

Sentimentos se adensam
Sedimentos
Feridas de fogo
Ventos que passaram
E o que deixaram

Garrafa lançada ao mar
Que leva o barco dentro


Maceió, 26/11/2017


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Estrago

Quando ela desceu no elevador
fumei a guimba do cigarro
que ela deixou no meio
até perceber o gosto de cigarro
da boca dela
deixado pra mim
guardado no cinzeiro
entre os livros
e a avenca
da prateleira

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Cenário perfeito
- asas -
o efeito
que o encanto
causa

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O sonho da torre

Cuidado onde pisa!
Uma torre ruiu
sob o peso da alma.

No chão se espalharam
seus cheiros e rituais;
os cacos podem cortar
seu pé.

Então não vá se perder
em pensamentos.
É bom ter uma cama,
uma espinha de peixe.

Tenha calma, irmão.
Foi só um amor que morreu
e o novo não precisa parecer com nada

domingo, 9 de julho de 2017

Textura

Café,
açúcar mascavo,
mel. O dia
se desfia
fluido. Uma mulher
sorri
onde o tempo
encontra a paz

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"A cada mil lágrimas sai um milagre"

Milágrimas
Itamar Assumpção




Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente o seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

terça-feira, 16 de maio de 2017

As pálpebras pesam
como um céu de nuvens cinzas;
Vai chover.

Não se sabe onde nem quando
Não se sabe quem estará lá para ver

Dizer teu nome não vai adiantar
Nem evocar
nem expurgar
para o território agreste da saudade

A tristeza virá
e ela própria
ensinará a suportar
Novo status
no crachá
palavras se lançam para fora do peito
Novos deuses eleitos
para um novo altar

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Senhor do tempo,
sentou-se entre paredes nuas.
O corpo
ainda sem tatuagens
A alma
com pretensões de artista.

No rosto, algo se ilumina

Sem ter sido criado pra criar
aprendeu
a se preservar poeta.
Ao modelar o segundo
resiste
Mas vai ter que se acostumar
e se aceitar matéria

A arte é longa

Bukowski
Baudelaire
Erickson Luna

A vida é curta

Sua alma
deita demônios no papel
pra poder dormir

segunda-feira, 24 de abril de 2017

As máscaras o perseguem
pelos becos do passado;
sente aproximá-las
e bem que gostaria
de sacar a sua arma.
Mas está só e sem palavras

edificações poéticas

saber construir
saber manter
saber
              morar

quarta-feira, 29 de março de 2017

Agradeço

Cada mudança,
tardes com cheiro de lavanda,
chorinho na praça,
a curva de cada estrada
e o que me pedia,
quase nada.
Porque me quiseste feliz,
porque me fizeste feliz

Primaveras elétricas
de doces punhaladas,
palavras guardadas,
escondidas de você,
porque eu fiquei ao teu lado,
ao abrigo da sorte,
e te quis feliz também

Silêncio de turbinas eólicas,
cataventos abatendo pombos,
cabelos soltos,
minha voz grave,
marcas na carne
que mais ninguém testemunhou
porque me quiseste feliz
porque me fizeste feliz
e eu te quis feliz também

Amigos que recebemos
em tempos trágicos,
ocupados em sermos trágicos
nos tributos agônicos,
e o mal que que nos fizemos
quando nossas felicidades
não conversaram mais.

Porque me quiseste feliz
e eu te quis feliz também.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Esboço de uma conversa



ENTÃO você vai dizer
que toda essa ira
é a pose verbal mais abjeta
e o meu fastio é indecoroso
para início de conversa.

A golpes de flores empalhadas,
arrancará os caracóis dos meus cabelos
dizendo que não velam nada,
nem revelam segredos.
(assim como a minha poética.)

Fará sete cortes no meu banzo
derrubando as louças, o leite
e a minha lente
de examinar domingos.

Me trancará no quarto
e fincará no meu peito
um punhal doce
de lembranças sublimes.

E eu flutuarei sobre o colchão,
dispnéico, no entardecer elétrico
desse nosso outono.

Por fim, você me agarrará
com unhas amoladas e, num golpe final,
arrancará
obtusos prantos
de meu carbono tristonho.

Desenganado,
meditarei um tanto:
o tempo de um trago.

Refeito, vou e lanço
a melhor estratégia
de min`alma hipocondríaca.

Abro fogo para todos os lados
com comedimento planejado,
arrazoando a sala, a servidão, o quarto.


E com discurso afásico,
lhe aturdo e sumo

na fumaça do cigarro.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

SERENA

com Clayton Barros

Entrega teu corpo na cena
vestida de vento
serena, serena
tira a roupa de dentro
serena, serena

Esfrega o suor no poema
o sangue na grama
até que revele
outra veste, outra pele
uma pela morena

Tocar o vazio do espaço
sem nervos, sem aço
o sonho é o chão

Carrega no peito o que somos
o que ainda seremos
nunca morreremos
seremos plantados
em novos terrenos

Tocar o infinito do espaço
sem nervos, sem aço
o sonho é o chão

A ver

Há um fio
 que me prende
ao rio

Outro
ao teu corpo

Há uma aliança
com seguro vitalício

Há teu vestido
vazio

Rio, 24/12/2016