segunda-feira, 25 de junho de 2012

'A praga' na rede

Pessoal, meu cordel "A praga da corrupção" agora está disponível na página da Controladoria-Geral da União. Ele foi incluído na biblioteca virtual da Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social, onde tem várias publicações sobre o mesmo tema. Quem ainda não leu, pode acessar:


http://www.consocial.cgu.gov.br/uploads/biblioteca_arquivos/267/arquivo_9caec3d50e.pdf

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fé pública


“Para levantar não é preciso dignidade”. Com este insight - anotado num caderno que mantém sempre ao lado da cama para registrar os seus sonhos - Otávio despertou naquela terça-feira, já sabendo como terminaria o dia. Meteu-se num terno e foi trabalhar levando consigo o mesmo corpo que visitara Paris, perdera-se em Veneza e dormira durante vinte e dois anos ao lado de Raquel. O dia não lhe reservava nada épico: duas audiências, reunião, almoço com um cliente, sessão de julgamento na Oitava Vara Criminal. Se tudo desse certo, à noite brindaria a um estelionatário absolvido, ou pelo menos, beneficiado com o direito a recorrer em liberdade.

Naquela manhã, um jornalista ligou pedindo acesso a um processo de grande repercussão que corria em segredo de justiça. Seis padres de um colégio tradicional acusados de pedofilia. A fase dos depoimentos começara naquela semana, mas fora das audiências os familiares das vítimas e a Igreja se limitavam a divulgar notas oficiais protocolares. A imprensa havia batizado a ação da polícia como "Operação Juízo Final". Otávio convidou o repórter para tomar um café na quinta-feira à tarde, com a promessa de dar em off todas as informações que pudesse sem se comprometer. Pela janela, viu que chovia no Centro do Rio. A Glória, secretária que dava para ele e pro Júnior, certamente lhe pediria carona.

Júnior era o sócio e ex-colega de faculdade de Otávio. O escritório tinha ainda um patrono, o Souto. Principal acionista, e pai do Júnior, ele abrira a sociedade com dois advogados já falecidos. Abaixo deles, havia quatro advogados e seis estagiários.

Nos dias em que Otávio sentia raiva daquelas pessoas e de si mesmo, ele caminhava até o Largo do São Francisco, para observar os estudantes deixando o Instituto de Filosofia, e os mendigos e loucos da praça. “O que eu nunca fui e o que eu nunca serei”, pensava, com sentimentos de orgulho e inveja.

Mas neste dia seu ânimo pendia para a autoindulgência.

Assim que chegou, Junior veio cumprimentá-lo.

- Dia importante hein!

- Como sempre, Doutor.

- Estamos contando com você.

- Podem contar.

- E o caso da Igreja?

- Tudo em ordem. É mais fácil o diabo rezar uma missa do que o nosso cliente sair algemado.

- A imprensa tem batido demais.

- Nosso cliente sairá como vítima. Quer apostar?

- Não preciso apostar, tenho fé no Direito.

- Amém.

Júnior deixou a sala. Sozinho, Otávio voltou a contemplar a chuva.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pensamento do dia

Eis que leio esta reflexão estética enviada pelo amigo, e coautor do livro que devemos lançar até o fim do ano, Leo Sales:


"O dramaturgo polonês Witold Gombrowicz levou até as últimas conseqüências a importância dessa deformidade, desse inacabamento, do que ele chamou de imaturidade necessária ao artista. Diz Gombrowicz que o escritor é um amante da Imaturidade, assim como o homem adulto e acabado é tentado pelo jovem, pelo inferior, pelo irresponsável, pelo leviano, pois é onde a vida se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não pegou inteiramente". 


(Peter Paul Peubart - "A gorda saúde dominante")

sábado, 9 de junho de 2012

Minimalista #1



Não é feito
      pra     durar
                 doer
                 voar

                   tudo
                   muito
                   pouco
                   sentido

João Pessoa, 14/05/2012

"A arte não ama os covardes" *

Invejo os poetas de dentes podres
                                                                                       Que na rua, com folhetos toscamente grampeados, chegam sem pedir ("licença?") e interrompem papos impo(rtan(ten))tes, vendem seu trabalho a dois reais e
           Não temem a empáfia,
               Não param na segunda dose,
        Dormem em catres,
                              Frequentam prostitutas e a Central do Brasil.
Veneráveis bardos-por mais que seus nomes jamais figurem numa antologia foda-se já estão em Pasárgada!
                      São eles os poetas verdadeiros. Os outros somos imitadores.




* Vinicius de Moraes