quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Ainda somos parte da mesma História. Europeus e muçulmanos seguem se dominando e guerreando há séculos. Meu bisavô migrou do Líbano, que pertenceu à Síria, que foi comandada pela França. Sim. Em 1860, a França estava fazendo uma expedição na Síria. Exatamente como agora. E, no meio disso tudo, os civis seguem se refugiando... Esse meu bisavô, que pelo que me consta era maronita (cristão), se casou com uma francesa, que veio a ser minha bisavó. Mas isso é só uma parte da minha história, e dos cerca de 130 brasileiros que levam esse meu sobrenome no país. Minhas avós e minha mãe, por outro lado, quando solteiras, tinham sobrenomes de cristãos novos, o que significa que descendem de judeus convertidos à força ao catolicismo durante a Inquisição. E meus olhos, já disseram, têm um formato que seria dos índios, mas esse parentesco a memória conservada de minha(s) família(s) ou ocultou ou perdeu. Certamente tenho familiares negros, como todos brasileiros, também. O fato é que, sem a vontade de sobreviver desses refugiados, desses convertidos, eu não estaria aqui. Uma decisão errada numa situação limite poderia ter mudado todo o curso dessa história. Estudar a própria família é uma coisa muito forte. É reconhecer que o DNA de nosso país tem um lado escravista-inquisidor-rapa ce e outro de minorias que lutaram, com mais ou menos violência ou jogo de cintura para não serem esmagadas. Ainda somos parte da mesma história. Há duas gerações atrás, tua família provavelmente vivia no meio rural (por que saiu?). Há três, possivelmente uma parte do que você é ainda não tinha aportado por estes trópicos (por que vieram?). Isso não faz tanto tempo. Nossas veias seguem abertas, e nelas correm esses genes todinhos. Olhe na rua: evangélicos e católicos disputam rebanhos de fiéis - e isso também não é de hoje (foto), talvez a diferença é que agora os protestantes estão ganhando. E, por toda parte as cinzas ainda mornas do fascismo tentam ressurgir, se tornar brasas, provocar incêndios... enquanto a imprensa segue firme disseminando o duplipensar. E a gente vai se iludindo, pensando que a história acabou e se achando o máximo por renegar as religiões e acreditar em dinheiro, a forma contemporânea de Deus. Mas eu confio no poder da cultura, e sua infinita possibilidade de encontros, para transformar o ser humano e mudar o rumo desse mundo.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Paradoxo
Amo-te mais no que me pré-existe.
Longe não conspurcado por meu toque,
duna tua que não quero que desloque
a brisa leve ou que a tormenta agite.
Prezo-te a estranheza que me resiste
qual um borrão de impossível enfoque,
não obstante desde a penumbra evoque
atração e a própria extinção incite,
uma vez que dela sempre há menos
pois se alguém lhe toca, tira um grão.
Assim sendo, os meus gestos serenos
revelam a triste contradição:
acima de tudo o que nós erguemos
amo-te o vazio da tua solidão.
domingo, 1 de novembro de 2015
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Arte e natureza
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Teu espelho
Quis te fazer
chamar meu nome,
um nome
par.
Inocular
o sonho
preciso
do fausto
e da fome.
Te apresentar
meu eu
mais ermo,
esparso.
Encaixando
teus cachos
nos meus braços
sem risos sonoplásticos.
sem risos sonoplásticos.
Como um som,
de tão próximo
nunca ouvido.
Corpo escuro
junto ao sol
jamais visto.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Carta aberta #1
Houve um tempo, recentemente, em que voltei a enviar cartas. Enviei-as para amigos do Rio, do Ceará, NY... Isso, somado ao fato de que também escuto vinis e faço fotos com câmera analógica, indicaria um certo conflito com um tempo de instantaneidades babélicas? Talvez. Escrevo neste momento em um computador, e ao terminar a frase anterior, cliquei na outra aba do navegador, para buscar no facebook um poema recomendado por um amigo que mora em Filadélfia. Por aí você tira. O meio é a mensagem. Fato é que os recursos analógicos e de maturação mais lenta têm essa propriedade de nos induzir a uma seletividade maior. Um filme de 36 fotos te fará escolher melhor cada ângulo, irá apurar o teu olhar. Uma carta manuscrita te fará expressar-se com mais precisão do que um meio em que se pode apagar e reescrever (como este). Um vinil te garantirá uma audição mais coesa. Enquanto escrevia este parágrafo, resisti ao impulso de entrar no Youtube para rever uma frase que o Zé Celso fala no começo de um documentário, que é justamente sobre a escolha de transgredir o tempo, ou algo assim.
Minha amiga e poeta Paula Máiran, uma das destinatárias dessas cartas, postou recentemente, no Facebook, um poema que fala que o tempo não passa, nós é que passamos por ele. Eu não saberia me explicar melhor. Por exemplo - e aqui não estou fazendo poesia, mas prosa - encontro em escritos muito antigos respostas para angústias contemporâneas. Por quê? Porque tudo é contemporâneo. Não houve o tempo do meu bisavô e o tempo de agora. O que houve, e há, é gente lutando pela existência, sempre. Gosto de pensar que Leonardo da Vinci foi contemporâneo de Torquemada, o que mostra que o tempo é um senhor bem democrático, no mínimo.
Sendo assim, a poesia, para mim, é um desses canais que nos permitem transcender as percepções ilusórias e, nisso, se aproxima da meditação. Aedos, profetas, trovadores, poetinhas têm essa capacidade de falar com a gente de forma presente, nunca pretérita. Uma das impressões que eu tinha quando lia "A Gaia Ciência" nas minhas horas de almoço era que o Nietzsche -que foi poeta- estava ali comigo no jardim interno da Santa Casa de Misericórdia. Ou que eu não estava ali. Quando li os primeiros poemas de Baudelaire, sua voz era perceptiva para mim (e também para um amigo, que levou o livro emprestado enquanto eu dormia, por ter impressão semelhante). Da mesma forma, quando ouvi, em vinil, o Soneto de Meditação IV do Vinícius de Moraes, desci com ele para me fundir ao mar e me esbater numa rocha.
Pouco depois que me mudei para o Recife, encontrei com uma amiga do Rio que tinha planos de se mudar para cá para viver com o então namorado dela. O sujeito percebeu em mim algo da ruína daquele momento e me estendeu a mão. Era um cara muito sensível, se você quer ter uma ideia de como ele era, pense no Belchior. E me contou de suas viagens, que tinha dormido no quarto em que havia se hospedado Jack London (se não me engano no Havaí) e que, ao ir para Paris, viu -realmente viu- rolarem as cabeças de Luis XVI e Maria Antonieta. E eu me impressionei. Como poderia viver alguém com um grau tão elevado de sensibilidade? Eu sempre achei que sensibilidade era um troço que a gente devia esconder do resto do mundo, sob pena de ser posto à margem. Que a gente tinha que ter estratégia para não ser devorado pelos canibais ou queimado pelos Torquemadas da vida.
Uma parte dos artistas que eu conheço de alguma forma habitaram meios que lhes favoreciam, outros simplesmente tiveram muito culhão. Certamente fui privilegiado por ter tido contato com muitos livros e filmes desde cedo, e estimulado por uma boa formação humanista. Ainda assim, sempre me senti meio estranho no ninho. Principalmente no colégio, entre os meus "contemporâneos". Houve uns dois anos da minha vida, 1997 e 1998, em que eu praticamente não me comuniquei com ninguém. Vivia trancafiado em mim - e, por isso, hoje, posso falar desse momento atual como uma Perestroika. Depois as coisas melhoraram um pouco, fiz amigos, viagens, me apaixonei, levei pé na bunda etcétera. E tive outras fases daquelas, em que me disseram que eu estava agindo feito um Gerald Thomas. São ciclos de expansão e retração, e, a medida que o tempo passa, entendo e lido melhor com eles. No momento atual, estou novamente numa fase de expansão.
Meus ídolos sempre foram os iconoclastas, aqueles capazes de entrar e sair das estruturas, e os outsiders. Acredito que se pode sentir identificação e colher momentos belos e impactantes mesmo em ambientes áridos. Quando trabalhei no Ministério Público, por exemplo, admirei profundamente um procurador de justiça que, ao receber uma homenagem, citou Sepultura ("Recuse! Resista!"), falou sobre sua escolha por não fazer concessões e ironizou todas as formalidades e vaidades da classe e da ocasião. Era um sujeito cabeludo, todo tatuado, com cara de Hell's Angel. E por que foi homenageado? Porque era simplesmente de uma competência muito acima da média. Então eu vi um pouco do que poderia ser o meu caminho.
Por sinal, nunca pensei em termos de objetivos. E esse insight eu tive recentemente. O importante para mim sempre foi o caminho. Não planejei vir para o Recife. Foi a solução encontrada dentro das possibilidades e dificuldades geradas por minhas próprias escolhas. E tudo está se en'caminhando. Voltando ao Zé Celso, "o amor é uma energia muito forte, quando ele bate destroi impérios e famílias". Descobri isso na carne, e constatei que só o amor, com liberdade, é capaz de potencializar aquilo que você é. Essas escolhas têm um preço (não quero falar disso agora), mas trazem um aprendizado que tem valido a pena pagar. E já tenho dois livros de poesia praticamente prontos sobre tudo isso.
Mas voltando à prosa, como já expressei anteriormente, Recife me ensina muito sobre a luta pela existência. Acredito que todo mundo com algum grau de nomadismo sabe o que é estar num ambiente novo. Se você der mole, deixa de existir para o mundo. Por isso, nos cabe estar abertos e promover encontros. Então faço meus saraus, vou a reuniões políticas, frequento minhas aulas de circo, me coloco intensamente no trabalho, proponho parcerias, deixo outros projetos pela metade... e assim vai se passando o tempo que na terra me foi dado. Tenho a vida perfeita? Não. Muito longe disso. Mas eu juro: busco vivê-la com mais generosidade. Sei que muita gente vai ter críticas a mim, pelos mais variados motivos, mas eu tento perceber mais o outro, ter mais empatia, rever meus preconceitos e ter menos preguiça de me colocar no lugar do outro. Nem sempre consigo.
Quem acha que o mundo é mau, talvez apenas não tenha encontrado as pessoas certas para estar perto. Ou então não tenha se permitido mostrar o que traz por detrás da máscara que veste para enfrentar o mundo. É fácil? Não. É perigoso? Sim. Mas você não está só. Como diz o Ave Sangria, "não se enterre na solidão!".
Sendo assim, a poesia, para mim, é um desses canais que nos permitem transcender as percepções ilusórias e, nisso, se aproxima da meditação. Aedos, profetas, trovadores, poetinhas têm essa capacidade de falar com a gente de forma presente, nunca pretérita. Uma das impressões que eu tinha quando lia "A Gaia Ciência" nas minhas horas de almoço era que o Nietzsche -que foi poeta- estava ali comigo no jardim interno da Santa Casa de Misericórdia. Ou que eu não estava ali. Quando li os primeiros poemas de Baudelaire, sua voz era perceptiva para mim (e também para um amigo, que levou o livro emprestado enquanto eu dormia, por ter impressão semelhante). Da mesma forma, quando ouvi, em vinil, o Soneto de Meditação IV do Vinícius de Moraes, desci com ele para me fundir ao mar e me esbater numa rocha.
Pouco depois que me mudei para o Recife, encontrei com uma amiga do Rio que tinha planos de se mudar para cá para viver com o então namorado dela. O sujeito percebeu em mim algo da ruína daquele momento e me estendeu a mão. Era um cara muito sensível, se você quer ter uma ideia de como ele era, pense no Belchior. E me contou de suas viagens, que tinha dormido no quarto em que havia se hospedado Jack London (se não me engano no Havaí) e que, ao ir para Paris, viu -realmente viu- rolarem as cabeças de Luis XVI e Maria Antonieta. E eu me impressionei. Como poderia viver alguém com um grau tão elevado de sensibilidade? Eu sempre achei que sensibilidade era um troço que a gente devia esconder do resto do mundo, sob pena de ser posto à margem. Que a gente tinha que ter estratégia para não ser devorado pelos canibais ou queimado pelos Torquemadas da vida.
Uma parte dos artistas que eu conheço de alguma forma habitaram meios que lhes favoreciam, outros simplesmente tiveram muito culhão. Certamente fui privilegiado por ter tido contato com muitos livros e filmes desde cedo, e estimulado por uma boa formação humanista. Ainda assim, sempre me senti meio estranho no ninho. Principalmente no colégio, entre os meus "contemporâneos". Houve uns dois anos da minha vida, 1997 e 1998, em que eu praticamente não me comuniquei com ninguém. Vivia trancafiado em mim - e, por isso, hoje, posso falar desse momento atual como uma Perestroika. Depois as coisas melhoraram um pouco, fiz amigos, viagens, me apaixonei, levei pé na bunda etcétera. E tive outras fases daquelas, em que me disseram que eu estava agindo feito um Gerald Thomas. São ciclos de expansão e retração, e, a medida que o tempo passa, entendo e lido melhor com eles. No momento atual, estou novamente numa fase de expansão.
Meus ídolos sempre foram os iconoclastas, aqueles capazes de entrar e sair das estruturas, e os outsiders. Acredito que se pode sentir identificação e colher momentos belos e impactantes mesmo em ambientes áridos. Quando trabalhei no Ministério Público, por exemplo, admirei profundamente um procurador de justiça que, ao receber uma homenagem, citou Sepultura ("Recuse! Resista!"), falou sobre sua escolha por não fazer concessões e ironizou todas as formalidades e vaidades da classe e da ocasião. Era um sujeito cabeludo, todo tatuado, com cara de Hell's Angel. E por que foi homenageado? Porque era simplesmente de uma competência muito acima da média. Então eu vi um pouco do que poderia ser o meu caminho.
Por sinal, nunca pensei em termos de objetivos. E esse insight eu tive recentemente. O importante para mim sempre foi o caminho. Não planejei vir para o Recife. Foi a solução encontrada dentro das possibilidades e dificuldades geradas por minhas próprias escolhas. E tudo está se en'caminhando. Voltando ao Zé Celso, "o amor é uma energia muito forte, quando ele bate destroi impérios e famílias". Descobri isso na carne, e constatei que só o amor, com liberdade, é capaz de potencializar aquilo que você é. Essas escolhas têm um preço (não quero falar disso agora), mas trazem um aprendizado que tem valido a pena pagar. E já tenho dois livros de poesia praticamente prontos sobre tudo isso.
Mas voltando à prosa, como já expressei anteriormente, Recife me ensina muito sobre a luta pela existência. Acredito que todo mundo com algum grau de nomadismo sabe o que é estar num ambiente novo. Se você der mole, deixa de existir para o mundo. Por isso, nos cabe estar abertos e promover encontros. Então faço meus saraus, vou a reuniões políticas, frequento minhas aulas de circo, me coloco intensamente no trabalho, proponho parcerias, deixo outros projetos pela metade... e assim vai se passando o tempo que na terra me foi dado. Tenho a vida perfeita? Não. Muito longe disso. Mas eu juro: busco vivê-la com mais generosidade. Sei que muita gente vai ter críticas a mim, pelos mais variados motivos, mas eu tento perceber mais o outro, ter mais empatia, rever meus preconceitos e ter menos preguiça de me colocar no lugar do outro. Nem sempre consigo.
Quem acha que o mundo é mau, talvez apenas não tenha encontrado as pessoas certas para estar perto. Ou então não tenha se permitido mostrar o que traz por detrás da máscara que veste para enfrentar o mundo. É fácil? Não. É perigoso? Sim. Mas você não está só. Como diz o Ave Sangria, "não se enterre na solidão!".
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Amor trocado
Uma cerveja
pra trocar o dinheiro,
esquecer um amor
que afoga mais
do que o álcool.
Assim vai
por tantas noites,
que de tanto esquecer
o que é bom
bom mesmo é o que passa
sem deixar lembrança.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Kiyiya vur an insanlik
Nessa praia,
crianças brincam de guerra
com armas imaginárias.
Naquela do Mediterrâneo
se afogam os refugiados
do óleo e da água.
que não sabem nadar.
refugado no mar.
crianças brincam de guerra
com armas imaginárias.
Naquela do Mediterrâneo
se afogam os refugiados
do óleo e da água.
Castelos de areia
protegem a Europa
Dos Filhos de Deus
sem herançaque não sabem nadar.
Nas fronteiras traçadas
por publicitários
e madrassas
morre-se
engolfado no céue madrassas
morre-se
refugado no mar.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Cio da Cidade
Quando o mar beijar o asfalto
com tato diluviano
uma Venus no concreto
vai dar o seu recado
com a língua
queimando
de magma
uma Venus no concreto
vai dar o seu recado
com a língua
queimando
de magma
terça-feira, 25 de agosto de 2015
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Anfíbio
Café velho
na tábua de carne - pesadelo
no escorredor.
O biscoito afunda no leite
e o meu corpo vassalo se evade
na tensão de superfícies.
Deslizo nas curvas da cidade
existindo mais ou menos
ao som de Smiths.
na tábua de carne - pesadelo
no escorredor.
O biscoito afunda no leite
e o meu corpo vassalo se evade
na tensão de superfícies.
Deslizo nas curvas da cidade
existindo mais ou menos
ao som de Smiths.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Esperança
Pichadores escrevem "Jô Soares, morra" por causa de uma entrevista. Sim. De uma entrevista. Agressão a petistas no Congresso do partido. Menina de 11 anos com roupa de culto apedrejada e insultada no Insituto Médico Legal. Ialorixá de 90 anos morta na Bahia após agressões de fundamentalistas religiosos. Manifestantes feridos em confronto provocado por machistas durante a Marcha das Vadias. "Pai Nosso" rezado na reunião plenária da Câmara, regida esta por um presidente investigado por corrupção que afirma não ter "nenhuma preocupação com nenhuma manifestação de qualquer grupo em nenhum lugar". Avanço, sem discussão madura com a sociedade, de propostas que impactam na vida de muitos, como a redução da idade penal. Trabalhadores haitianos humilhados por um dito nacionalista. Ex-ministro hostilizado quando acompanhava a mulher com câncer num hospital. Um "filósofo" que sugere que se atire na cara dos adversários. Intolerância. Intolerância. Intolerância. De todos os lados. Religiosos, coxinhas, esquerdistas, parlamentares, militantes… todos chamando para a briga. Polarizações. Corda tensionada, conflitos sem freio nem contrapeso. Pequenas faíscas provocando grandes combustões. E uma sensação de falência, cansaço, tensão… 2013. Há dois anos era por vinte centavos: aumentaram 45. Era contra a corrupção: vão torná-la constitucional. Era por Educação de qualidade: pretendem encarcerar a juventude. Era pela Reforma Política: propõem diminuir a participação da sociedade e aumentar a dos grandes patrocinadores de campanhas. Quando foi mesmo que pedir votos dentro de igrejas se tornou moralmente aceitável? Quando passamos a aceitar o coronelismo religioso? Ulysses, Covas, Brizola, Luiz Inácio, Fernando Henrique… há duas geração atrás, com todas as divergências políticas, o espírito republicano prevaleceu e conseguiu-se poupar uma geração, a minha, de tempos sombrios… travar o gatilho do fascismo. O fasciscmo MESMO, que agora ronda o Brasil, este país que está inteiro no Terra em Transe. "O abismo está aí aberto! Todos nós marchamos para ele. Mas a culpa não é do povo! A culpa não é do povo! A culpa não é do povo! Mas o povo sai correndo atrás do primeiro que lhes acena com uma espada ou uma cruz". Violento, violento é o Estado. Sua grande tirania é o que fermenta o desejo cego de vingança. E ela está nos coletivos abarrotados, no sarro forçado, no esconder o celular para não ser roubado, nas reintegrações violentas de posse, nas violações da lei por legisladores patrimonialistas, nas cotas que os escritórios de advocacia possuem junto aos juízes, no sistema de castas para clientes dos bancos, nos ajustes fiscais que penitenciam os mais pobres, na morte indigna na fila do SUS, nas grávidas de 14 anos. E, no entanto, o Estado somos todos nós. Em tempos como este, sombrios, me agarro ao Brecht ("também o ódio à baixeza deforma as feições"), aos poetas e ativistas que percebem que o Imaginário é sem fronteiras e que "são demônios os que destroem o poder bravio da humanidade" (SCIENCE: 1994). Agarro-me aos mais velhos que conseguiram se depurar e extrair alguma sabedoria de sua vivência (não são todos). Alguns amigos meus não conseguem prever outra coisa que não seja um conflito extremo, pesado e devastador para, então, a humanidade voltar a si. Eu olho para mim e me debato entre um pessimismo atávico, uma consciência difusa de classe a superar e o desejo de proteger os que amo e de amar mais plenamente. O Gigante acordou e mostrou-se um horrendo Leviatã. Ou, mais precisamente, um Moloque. Terá sido sempre assim? Com certeza já estava escrito na nossa bandeira. Ordem e Progresso não é Amor e Humor, não é Criatividade e Liberdade. Mas se tem sido assim, e chegamos nesse ponto, então é preciso resistir, sonhar alto e acreditar que o Estado possa ser refundado em novas bases. Não será fácil. As derrotas pesam. Por outro lado, não faltam exemplos inspiradores. Na pior das hipóteses, resta a esperança de que o gatilho, ainda que seja apertado e desencadeie seja que lá que página infeliz nos reserve a história, venha a disparar também algo de inevitável e potente dos nossos próprios seres. É uma esperança bem estranha. Ainda assim, uma esperança.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
DOIS IRMÃOS, uma parábola do nosso tempo
Era uma vez um homem rico, muito rico, que passava os dias preenchendo planilhas, falando ao telefone e fechando negócios. Ele morava de frente para o mar, num apartamento amplo, climatizado e com janelas de vidros blindados. Ele tinha um irmão gêmeo, um vagabundo, que passava os dias na praia pegando onda. Dividiam o mesmo lar, herdado de seus pais, mas, ao contrário do homem rico, o surfista mal era visto por ali. Acordava cedo para ver o sol nascer, dar seus mergulhos e, no fim da tarde, tocar violão nos luaus que promovia com os amigos.
Como não podia deixar de ser, os dois viviam a discutir. O homem dizia para o irmão: "Você devia se ocupar, parar de andar com esses maconheiros, achar um emprego. Dessa forma nunca vai ser nada na vida e vai perder tudo que nossos pais conquistaram". O surfista, por sua vez, falava em Osho, Reich, Kerouac... liberdade. "Nas minhas viagens, nas ruas, conheço as pessoas mais simples. É nelas que eu encontro a sabedoria que eu preciso para a minha vida", argumentava.
Um dia, o homem assistiu num programa de TV uma reportagem com especialistas indicando os benefícios do banho de mar para a saúde. Então deu crédito ao irmão pela primeira vez: resolveu atravessar a rua para dar um mergulho.
Mas, para não dar o braço a torcer, não avisou ao vagabundo surfista.
Entrou no mar, sentindo a água morna e salgada aos poucos cobrindo seu corpo. Quando já não dava mais pé, lembrou-se:nunca aprendera a nadar. E, para piorar, como tinha muitas moedas no bolso, começou a afundar e se afogar.
As pessoas da praia, percebendo o que se passava, começaram a gritar por socorro. O irmão surfista, que estava descansando depois de pegar onda, num círculo de amigos, foi resgatar aquele afogado, sem saber que era o seu gêmeo que estava morrendo.
Ao perceber o que estava acontecendo, ordenou: "deixe as moedas! esvazie os bolsos para conseguir flutuar! Eu posso te resgatar!". Mas o homem não deu ouvidos: "você está querendo que eu abra mão do que eu conquistei!? você só fala isso porque quer me ver perdido e sem futuro como você! Jamais!". O surfista ainda tentava argumentar: "é a única maneira de você se salvar!". Mas o homem não conseguia imaginar uma outra vida sem sua coleção de moedinhas. Negou a mão que o irmão lhe estendia e entregou-se à morte.
Depois disso, seu testamento foi aberto. Atendendo ao pedido registrado num documento com várias planilhas anexadas, seu corpo foi cremado. E as cinzas, conforme a sua vontade, atiradas no oceano.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
BR
Encostas escavadas
escalpos
ossadas
Espíritos índios
dão bom dia
na chaga genética
Da estrada
ossadas
Espíritos índios
dão bom dia
na chaga genética
Da estrada
Luminosos da cidade
e o terror estético
dos condomínios
Carros
em estado de carcaça
correram velozes
Na estrada
e o terror estético
dos condomínios
Carros
em estado de carcaça
correram velozes
Na estrada
Outdoor de jeans
no solo agreste
tanto lixo
bicho
morto.
É de extermínio
A nossa estrada.
no solo agreste
tanto lixo
bicho
morto.
É de extermínio
A nossa estrada.
domingo, 25 de janeiro de 2015
Febre aZiática
Azia.
O celular que não me deixa falar.
O sair para respirar
fumar
ou quiçá
vomitar
uma bola de pelo.
O celular que não me deixa falar.
O sair para respirar
fumar
ou quiçá
vomitar
uma bola de pelo.
Tudo o que é vaidade fenecerá.
tudo o que é verdade prevalecerá.
Uma meia sem par.
A conexão de um homem
com seu orixá.
tudo o que é verdade prevalecerá.
Uma meia sem par.
A conexão de um homem
com seu orixá.
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