sexta-feira, 10 de julho de 2009

Um caminho para chamar de seu

Não tenho medo de morrer, tenho medo de não viver‘. Esta frase lapidar meio beatnik surgiu na minha mente há alguns anos e está anotada em algum bloco de rascunhos perdido no tempo. Quando pensei nela, a ideia era usar em um conto ou algo assim. Mas não voltei a empregá-la até hoje, quando me ocorreu novamente no meio de um brainstorm.

Estas palavras não devem ser interpretadas como uma ode à vida hedonista, mas como um alerta contra o conformismo, este sentimento que de tão reinante só nos mostra que o medo de viver é igualmente ou mais difundido do que o medo de morrer. As pessoas se protegem da vida com preconceitos e rotinas. Enclausuram-se em pensamentos fáceis e sentimentos folhetinescos.

Por quê?

Para o rabino Nilton Bonder, a vida é caracterizada pela permanente tensão entre o desejo de autopreservação do corpo e as demandas transgressoras da alma. O corpo é moral, conservador, deseja manter-se íntegro. A alma é imoral, capciosa, almeja a transcendência. Viver apenas pelos ditames do corpo é não explorar a vida em toda sua plenitude. Ceder a todos os desejos da alma é caminhar para o abismo.

Em qualquer tempo, viver sem dar grande importância aos imperativos da alma sempre foi o caminho indiscutivelmente mais fácil e popular. Afinal, que esforço nos exige o apego a um espaço vital para o corpo e a mente? E a aceitação mecânica do senso comum? Nenhum. ‘Living is easy with eyes closed‘, disseram os Beatles.

O caminho de ‘viver‘ com alma envolve riscos e renúncias materiais e pessoais. Para não abrir mão da alma, às vezes é preciso fazê-lo com relação ao vil metal, por exemplo.

A existência de quem toma a ‘pílula vermelha‘ não é fácil. E não é preciso ser um avatar como o Neo, do ‘Matrix‘, ou uma mãe da Plaza de Mayo para saber um pouco do que ocorre com quem desafia o status quo. No limite, pode conduzir a crucificação, enforcamento, fuzilamento ou à fogueira.

No mínimo, não seguir a corrente, não rezar pela cartilha de uma igreja, tribo ou partido político pode gerar um vasto sentimento de solidão, como o de quem luta contra a máfia napolitana, para voltar a citar o livro ‘Gomorra‘, do Roberto Saviano.

Sentir-se estranho no ninho é parte do risco, mas a cada dia que passa, fica mais claro para mim que não há outra maneira de chegar à realização do que se jogar na vida e construir o próprio ninho.

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Cada um tem a sua ‘tensão‘. No meu caso pessoal, a experiência de empenhar a alma tem sido antes de tudo a experiência do questionamento constante.

Se, como jornalista, a interrogação para mim é uma ferramenta de trabalho tão importante quanto o cinzel de um escultor, minha busca profissional tem sido capacitar-me para perguntar cada vez melhor.

Se, como destaca o livro Freakonomics, que ando lendo avidamente, fazer boas perguntas e refutar a ‘sabedoria convencional' é fator que leva ao conhecimento, minha busca pessoal tem sido capacitar-me para perguntar cada vez melhor a mim mesmo.

Eu quero levantar indagações como Brecht em ‘Perguntas de um trabalhador que lê‘: ‘Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra? (...)‘.

Quero ser capaz de perguntar como os autores do Freakonomics: ‘Por que os traficantes continuam morando com as mães?‘.

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Cada um tem a sua ‘tensão‘. Uma amiga minha diz se sentir cada vez mais só no caminho que escolheu. Decerto se ela tivesse a capacidade de se dissolver numa multidão qualquer sem sentir-se frustrada, seria muito mais simples. Mas não é o caso. E por isso respondo a ela:

- Veja pelo lado bom. É bonito saber que existe um caminho que é só seu.