Não tenho medo de morrer, tenho medo de não viver‘. Esta frase lapidar meio beatnik surgiu na minha mente há alguns anos e está anotada em algum bloco de rascunhos perdido no tempo. Quando pensei nela, a ideia era usar em um conto ou algo assim. Mas não voltei a empregá-la até hoje, quando me ocorreu novamente no meio de um brainstorm.
Estas palavras não devem ser interpretadas como uma ode à vida hedonista, mas como um alerta contra o conformismo, este sentimento que de tão reinante só nos mostra que o medo de viver é igualmente ou mais difundido do que o medo de morrer. As pessoas se protegem da vida com preconceitos e rotinas. Enclausuram-se em pensamentos fáceis e sentimentos folhetinescos.
Por quê?
Para o rabino Nilton Bonder, a vida é caracterizada pela permanente tensão entre o desejo de autopreservação do corpo e as demandas transgressoras da alma. O corpo é moral, conservador, deseja manter-se íntegro. A alma é imoral, capciosa, almeja a transcendência. Viver apenas pelos ditames do corpo é não explorar a vida em toda sua plenitude. Ceder a todos os desejos da alma é caminhar para o abismo.
Em qualquer tempo, viver sem dar grande importância aos imperativos da alma sempre foi o caminho indiscutivelmente mais fácil e popular. Afinal, que esforço nos exige o apego a um espaço vital para o corpo e a mente? E a aceitação mecânica do senso comum? Nenhum. ‘Living is easy with eyes closed‘, disseram os Beatles.
O caminho de ‘viver‘ com alma envolve riscos e renúncias materiais e pessoais. Para não abrir mão da alma, às vezes é preciso fazê-lo com relação ao vil metal, por exemplo.
A existência de quem toma a ‘pílula vermelha‘ não é fácil. E não é preciso ser um avatar como o Neo, do ‘Matrix‘, ou uma mãe da Plaza de Mayo para saber um pouco do que ocorre com quem desafia o status quo. No limite, pode conduzir a crucificação, enforcamento, fuzilamento ou à fogueira.
No mínimo, não seguir a corrente, não rezar pela cartilha de uma igreja, tribo ou partido político pode gerar um vasto sentimento de solidão, como o de quem luta contra a máfia napolitana, para voltar a citar o livro ‘Gomorra‘, do Roberto Saviano.
Sentir-se estranho no ninho é parte do risco, mas a cada dia que passa, fica mais claro para mim que não há outra maneira de chegar à realização do que se jogar na vida e construir o próprio ninho.
***
Cada um tem a sua ‘tensão‘. No meu caso pessoal, a experiência de empenhar a alma tem sido antes de tudo a experiência do questionamento constante.
Se, como jornalista, a interrogação para mim é uma ferramenta de trabalho tão importante quanto o cinzel de um escultor, minha busca profissional tem sido capacitar-me para perguntar cada vez melhor.
Se, como destaca o livro Freakonomics, que ando lendo avidamente, fazer boas perguntas e refutar a ‘sabedoria convencional' é fator que leva ao conhecimento, minha busca pessoal tem sido capacitar-me para perguntar cada vez melhor a mim mesmo.
Eu quero levantar indagações como Brecht em ‘Perguntas de um trabalhador que lê‘: ‘Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra? (...)‘.
Quero ser capaz de perguntar como os autores do Freakonomics: ‘Por que os traficantes continuam morando com as mães?‘.
***
Cada um tem a sua ‘tensão‘. Uma amiga minha diz se sentir cada vez mais só no caminho que escolheu. Decerto se ela tivesse a capacidade de se dissolver numa multidão qualquer sem sentir-se frustrada, seria muito mais simples. Mas não é o caso. E por isso respondo a ela:
- Veja pelo lado bom. É bonito saber que existe um caminho que é só seu.