Estou há um bom tempo pensando em escrever algo sobre o medo da morte. Já sentei diante do laptop algumas vezes, mas não consigo passar da primeira frase, que seria "A necrofobia é a mãe de todos os medos". A partir daí, começo a achar que qualquer coisa que eu diga será considerada mórbida, e que alguns seguidores me ligarão sugerindo assistir ao último filme do Ben Stiller para desopilar o fígado. A preguiça de comprar a briga acaba me derrotando. Afinal, a morte também é a mãe de todos os tabus.
Ontem, por acaso, encontrei na coluna do Arnaldo Jabor - perto do fim, depois de uns cinco parágrafos apocalípticos e previsíveis - uma citação do poeta John Keats que resume a ideia central que eu desejava explorar. Dizia ele que as coisas são belas porque morrem, a rosa de porcelana não é tão bela como a que desmaia e fenece.
Nunca li Keats e, da mesma forma, não travei contato com o Livro Tibetano dos Mortos. Mas intuo que algo nele também deve ir ao encontro das reflexões que eu tenho feito sobre o assunto.
Em suma, considero a consciência da morte, talvez, o fator mais estruturante da condição humana. Sem a percepção da própria finitude, provavelmente não criaríamos cultura alguma, não teríamos arte, metafísica, religiões. A morte não é bela em si - apenas natural - mas é o que dá sentido à palavra "obra", tão cara à humanidade.
Até as estrelas morrem, mas o homem de hoje não quer pensar nisso. Ele só deseja evitá-la. Entretanto, as cirurgias plásticas, o oba-oba histérico das boates, os manuais de auto-ajuda estupidificantes, a fé nas promessas de vida eterna, as risadas gravadas das sitcoms... tudo isso só atesta o seu profundo e inconsciente medo da "indesejada das gentes".
Ora. Pensar na morte não é desejá-la. É aceitá-la como "lei de vida" (como canta o uruguaio Jorge Drexler). Até prova em contrário, esta me parece uma condição sine qua non para uma existência mais plena. Por um simples fato: colocamos muito mais de nós em cada momento se sabemos que ele é único. E aproveitamos muito mais a companhia dos outros que reconhecemos mortais.
Ok, sou um estudioso das Ciências Humanas em um mundo desumanizado - e por isso provavelmente ganharei sempre baixos salários. Talvez um dia isso que eu chamo de "condição humana" seja um conceito ultrapassado e a humanidade encontre soluções sintéticas que finalmente garantam uma felicidade infinita (enquanto dure). Mas aí seremos outro tipo de criatura.
Até lá, meu amigo humano, Memento mori. Lembre-se de que você morrerá.
Ontem, por acaso, encontrei na coluna do Arnaldo Jabor - perto do fim, depois de uns cinco parágrafos apocalípticos e previsíveis - uma citação do poeta John Keats que resume a ideia central que eu desejava explorar. Dizia ele que as coisas são belas porque morrem, a rosa de porcelana não é tão bela como a que desmaia e fenece.
Nunca li Keats e, da mesma forma, não travei contato com o Livro Tibetano dos Mortos. Mas intuo que algo nele também deve ir ao encontro das reflexões que eu tenho feito sobre o assunto.
Em suma, considero a consciência da morte, talvez, o fator mais estruturante da condição humana. Sem a percepção da própria finitude, provavelmente não criaríamos cultura alguma, não teríamos arte, metafísica, religiões. A morte não é bela em si - apenas natural - mas é o que dá sentido à palavra "obra", tão cara à humanidade.
Até as estrelas morrem, mas o homem de hoje não quer pensar nisso. Ele só deseja evitá-la. Entretanto, as cirurgias plásticas, o oba-oba histérico das boates, os manuais de auto-ajuda estupidificantes, a fé nas promessas de vida eterna, as risadas gravadas das sitcoms... tudo isso só atesta o seu profundo e inconsciente medo da "indesejada das gentes".
Ora. Pensar na morte não é desejá-la. É aceitá-la como "lei de vida" (como canta o uruguaio Jorge Drexler). Até prova em contrário, esta me parece uma condição sine qua non para uma existência mais plena. Por um simples fato: colocamos muito mais de nós em cada momento se sabemos que ele é único. E aproveitamos muito mais a companhia dos outros que reconhecemos mortais.
Ok, sou um estudioso das Ciências Humanas em um mundo desumanizado - e por isso provavelmente ganharei sempre baixos salários. Talvez um dia isso que eu chamo de "condição humana" seja um conceito ultrapassado e a humanidade encontre soluções sintéticas que finalmente garantam uma felicidade infinita (enquanto dure). Mas aí seremos outro tipo de criatura.
Até lá, meu amigo humano, Memento mori. Lembre-se de que você morrerá.