domingo, 28 de dezembro de 2014

Possa a parede nua
ser das sombras escora
e dos prazeres moldura
na penumbra das horas

E o tempo fechar seu compasso
num jogo de pernas
o sussuro ampliar no espaço
as palavras mais ternas.
Somos
instrumentos
de sopro
, não aço
O que percute na embocadura
ganha asas
nas ondas sonoras
faz
vibrar
a corda
acorda:
quem anda sobre o precipício
reconhece que tudo
está sempre
por um fio

sábado, 29 de novembro de 2014

BLACK FRIDAY


Compra-se
adaptador ao presente
novo ou usado
nacional, importado
com tecnologia que repare
o impulso
pelas coisas ausentes

Compra-se
aparador de bigode
que afaste da narina
o cheiro de resina
dos amores inconfessados.
Auto-falante
que suplante
a falta de palavra
diante da liberdade.

Compra-se ainda
um abafador
dos mil beijos que estalam
na Rua Augusta
hoje
que estou só.

Troca-se
irremediavelmente
um ruído interno
de 200 decibéis
por externos
ternos, tatuagens, conversas fáceis

Vende-se
Minha vida
por um anúncio de publicidade

São Paulo, 28/11/2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Rio 
Tecido 
Entre o 
Ter saído 
E o ter sido

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

entreabraços

- ... não me lembro o seu nome, mas o sorriso não mudou.
- É André. Tudo bem, nunca fui bom aluno de arte, mas fazia muita arte, era levado. Um menino arteiro. Ou talvez seja a barba.
- Quando você estudou aqui?
- De 1991 a 1994: primeira à quarta série. Mas não me lembro exatamente quais anos eu tive aula contigo.
- Dou aula da primeira à terceira. Só que hoje, não é mais série. É ano. Do primeiro ao terceiro ano.
- Pois é. Faz 20 anos.
- É, muita coisa mudou.
- Engraçado. Falei disso mais cedo com Tia Fátima. Dei uma volta no colégio e achei tudo parecido: as quadras... mas ela disse o mesmo que você. Só que eu só vi as estruturas, e ela estava se referindo a outra coisa. Aí não tenho como saber.
- A gente que é mais velha têm essa impressão. Na sua época, havia meninos que davam trabalho, mas hoje é pior. A gente tem que ter mais cuidado. Os pais passam muito a mão na cabeça.
- Imagino. Querem que o professor... E a tecnologia? Mudou também? As crianças estão mais dispersas?
- Pra gente foi bom, eles não usam na aula. Agora as salas têm data-show, fica mais fácil mostrar as obras.
- Você está trabalhando agora? Sinto que você quer falar e eu quero escutar. Podíamos tomar um café.
- Já estou quase terminando o meu dia, estou me preparando para ir embora, adiantando algumas coisas, terminando algumas coisas.
- Aqui não tem um café?
- Já tá tudo fechado.
- Bom. Uma coisa não mudou, o teu brilho no olhar. É a impressão que mais ficou daquela época.
- Eu gosto do que faço. É importante ter esse espaço... Mas é difícil. Há pouco tempo atrás fiz um outro curso, é difícil.
- Outra graduação?
- Sim, já tinha feito Belas Artes, e agora Pedagogia. Porque tem que fazer. Mas fico imaginado. É muito difícil a pessoa dar aula só com aquilo lá, sem ter tido a experiência.
- Aqui você está há quantos anos?
- Trinta e cinco, mas não conta para ninguém.
- Pois é. E eu já saí há 20. Virei jornalista. E nesse tempo fiquei meio perdido por aí. Agora estou juntando alguns estilhaços. Vim visitar minha família - foi aniversário da minha mãe na sexta - e hoje estava indo ao MAR (Museu de Arte do Rio). Passei por aqui e resolvi entrar pra ver. Fui vendo as coisas e me lembrando. O engraçado é que as professoras que eu lembro são as que mais influenciaram na minha vida: a Tia Arilma, de Português, a Fátima, de Matemática, que foi meu primeiro contato afetivo com Pernambuco, a Tia Ângela, da Biblioteca, que contava as histórias de mitologia, de Zeus, e você. Vocês me deram a base, as letras. E a arte transformou minha vida, se tornou uma das coisas mais importantes. Faço poesia. Mas até hoje não aprendi a desenhar. De vez em quando eu até tento...
- A gente fica com muito medo do papel em branco. Tem que esquecer isso e começar a brincar com os materiais, sem se preocupar muito com o resultado, com o que vai sair.
- Exato. O mundo é muito racional...
- ...cartesiano...
- Criar alguma coisa parece até pecado.
- É muita coisa que a gente guarda, vai acumulando, parece que não vai aguentar. E a gente é cobrado e se cobra demais: "tem que ser assim".
- Quando eu tento desenhar, tento usar carvão. Justamente...
- Porque parece mais com o lápis.
- Sim, mas também é pra sentir algo mais instintivo. Algo que não passe por essa racionalidade. Me sinto mais homem das cavernas.
- Bota uma música que você gosta, recorta alguma coisa, cola, passa tinta por cima. Vai brincando! Sem pensar no resultado! O resultado você talvez até chegue, às vezes você só vai saber lá na frente.
- Está vendo? Continuo aprendendo com você.
- Você está indo no MAR?
- Sim, fui agora no CCBB. Queria aproveitar. Ainda não fui lá.
- Está tendo uma exposição do Guignard lá, bem legal, sobre as influências do Oriente... E tem um bistrô, uma cobertura. Dá pra tomar um café, é bem agradável. Só não sei até que horas fica aberto.
- São quatro e dez. Desculpe, acho que já atrapalhei bastante o seu trabalho.
- Que nada. Agradeço a visita. É bom rever os alunos mais velhos para ver... que a gente fez..., que não está...,
- ...obrigado pelo brilho no olhar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Carnaval: tempo de vingança" *

Já não se fazem mais seres vegetativos como antigamente,

    mas ainda nos aberram
  com muitas armas
 de normatização em massa.

ainda nos negam
a possibilidade de afeto,
(mantêm o afeto)
(((sob controle de natalidade)))

assim que

a violência
 é a única saída possível.

         então pega

  cada segredo guardado
    cada loucura gestada
      cada silêncio intifado
       cada palavra empedrada no peito

        e lança tudo neles!

   Somos todos Quilombo!

Viva em Olinda a utopia em brasa
da vendetta

Não com a violência de quem marcha,
 a de quem dança - vamos!
Decepar reis! Coroar reis!
Imolar espelhos! Juntar estilhaços 
num carretel perfumado

só pra perguntar:

POR QUE NÃO 
A PUREZA?


* Frase pichada em um muro de Olinda

quarta-feira, 14 de maio de 2014

sábado, 5 de abril de 2014

#dada














Local: Biblioteca Pública de Pernambuco

sábado, 22 de março de 2014

Questão de ordem


O Papa é pop
mas e o pop... é papa?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Como uma peça de teatro que toca algo muito profundo do teu ser.
Como um livro que provoca insaciável saudade de um tempo que você nem sabe qual é.
Como a chuva no horizonte do dia que nasce, que você apenas vê mas não sente.
Como uma estação de trem em terra estrangeira dez minutos antes de você embarcar.