quarta-feira, 17 de maio de 2017

"A cada mil lágrimas sai um milagre"

Milágrimas
Itamar Assumpção




Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente o seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

terça-feira, 16 de maio de 2017

As pálpebras pesam
como um céu de nuvens cinzas;
Vai chover.

Não se sabe onde nem quando
Não se sabe quem estará lá para ver

Dizer teu nome não vai adiantar
Nem evocar
nem expurgar
para o território agreste da saudade

A tristeza virá
e ela própria
ensinará a suportar
Novo status
no crachá
palavras se lançam para fora do peito
Novos deuses eleitos
para um novo altar

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Senhor do tempo,
sentou-se entre paredes nuas.
O corpo
ainda sem tatuagens
A alma
com pretensões de artista.

No rosto, algo se ilumina

Sem ter sido criado pra criar
aprendeu
a se preservar poeta.
Ao modelar o segundo
resiste
Mas vai ter que se acostumar
e se aceitar matéria

A arte é longa

Bukowski
Baudelaire
Erickson Luna

A vida é curta

Sua alma
deita demônios no papel
pra poder dormir