domingo, 16 de maio de 2010

Pragmatismo é pouco

A política brasileira não é para iniciantes. Repare:

  1. A candidata presidencial do Partido Verde é evangélica e se opõe à descriminalização do aborto e da maconha.
  2. O presidente do país, de um partido de esquerda, apoia a candidata a governadora da oligarquia no Maranhão, contra o candidato do Partido Comunista, e o candidato a senador da Igreja Universal no Rio de Janeiro.
  3. A Prefeitura do Rio de Janeiro faz um governo liberal com o apoio de partidos de esquerda (PT, PSB, PCdoB, PDT).
  4. O candidato de oposição à presidência promete fazer um governo de continuidade.
  5. O ex-Partido Comunista Brasileiro (atual PPS) é aliado do ex-Arena (atual DEM).
E por aí vai...

Como diria Tim Maia: "O Brasil é o único país em que puta goza, cafetão sente ciúmes, traficante é viciado e pobre é de direita"

sábado, 8 de maio de 2010

Nós

No meio da multidão
ou sob os lençóis
-o que somos nós?

De voo ou chão,
se faz nossa ligação
entre o "pré" e o "pós"?

Teoria dos jogos
ou acasalamento preferencial?
Inquebrantável lógos
ou impulso hormonal?

O que nos faz ser tão "insustentável leveza do ser"
e tão classificados de jornal.

Uma coisa é certa:
Nos acertamos errando.
Nossa linha não é reta
E nossa meta
não é plano.

Penso que somos apenas nós,
que por trilhas barrocas
vamos do reino de Oz
ao de Maria, a Louca.

Viver nos outros vs. Viver com os outros

Certa feita, um unicórnio foi capturado em um reino não muito distante no tempo e no espaço. Rapidamente, o povo se juntou para ver o animal, exibido em praça pública. Diante da multidão, o rei foi o primeiro a discursar, cumprimentando o caçador pelo feito e afirmando que aquele momento era o marco de uma nova e venturosa fase para toda a região. Um feriado de cinco dias foi decretado para que todos pudessem ver e apreciar o ser mítico.

A notícia se espalhou e, no segundo dia, um esquema especial de segurança teve que ser montado para organizar as filas, pois a quantidade de pessoas, agora também provenientes de cidades vizinhas, superava todas as expectativas. Como era de se esperar, a reação do público pendia do espanto dos que jamais haviam visto espetáculo tão belo à incredulidade dos que desconfiavam de uma farsa bem montada.

Multiplicaram-se também os comerciantes, que vendiam supostos chumaços da crina e do rabo do unicórnio como talismãs. Os estudiosos, porém, foram os primeiros autorizados a tocar no chifre do ungulado. Dele recolheram amostras para análise mais minuciosa. Além disso, tomaram notas sobre cada milímetro do bicho, na tentativa de reunir elementos para identificar ancestrais e classificá-lo na árvore da vida.

No terceiro dia, saciadas as primeiras curiosidades, os jornais mudaram o enfoque: entrou em pauta a sexualidade do unicórnio. Nos mais conservadores, a discussão restringia-se à sua possível esterilidade; os tabloides populares devassavam sem pudores as práticas copulatórias e fomentavam as especulações mais pueris. Um deles oferecia alta recompensa para quem conseguisse capturar um unicórnio fêmea para promover o acasalamento.

No amanhecer do quarto dia, surpreendentemente, o chifre do unicórnio desapareceu sem que ninguém tivesse visto. Debates acalorados foram travados para explicar o fenômeno. Firmou-se no senso comum a versão de que tudo não passara de alucinação coletiva. Todos estudos foram desacreditados e aqueles que as traças não consumiram foram considerados heréticos e, como tais, irreversivelmente destruídos.

Ah, já vinha me esquecendo. No quinto dia, o unicórnio sem chifre que já não despertava o interesse de ninguém foi libertado e passou a viver entre cavalos e jumentos, já não mais como figura pública.