sábado, 30 de maio de 2009

Elogio da raiva

Algo dentro da minha cabeça foi ativado esta semana. Nas minhas sinapses houve um estalo depois que, por um lado, li os capítulos "Cimento armado" e "Dom Peppino Diana", do livro Gomorra, e, por outro, fiz uma reportagem sobre uma milícia com planos de assassinar um deputado do Rio.

Quem leu o livro e acompanha o noticiário pode imaginar a estranha confluência entre os fatos narrados por Roberto Saviano e os revelados, em entrevista coletiva, pelo delegado da Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) Claudio Ferraz.

Não vou discorrer sobre o monstro criado à margem do Estado, assunto exaustivamente debatido pelos especialistas. Minha reflexão surgiu a partir do livro de Roberto Saviano. Mais especificamente quando falar de quem denuncia e confronta a máfia napolitana.

Diz ele que este militante "deve encontrar alguma coisa que segure o estômago da alma para ir adiante. Cristo, Buda, o compromisso com a sociedade, a moral, o marxismo, o orgulho, o anarquismo, a luta contra o crime, a polícia, a raiva constante e perene, a própria região do Mezzagiorno".

Em seu caso, nascido e criado numa das regiões conflagradas, a potência da luta surge desta "raiva constante e perene" e não da religiosidade ou de uma filosofia política. Raiva esta que, a exemplo dos conterrâneos da Brigada vermelha ou do PCC, ele poderia ter usado para mandar alguns edifícios pelos ares. Mas não. Saviano faz do verbo sua pólvora, sua navalha. O livro é perfuro-cortante. Ooderia ser confiscado em qualquer embarque de voo internacional.

A denúncia, furiosa, atinge no âmago a força econômica, a influência política, a anomia cultural, a brutalidade e a opressora onipotência dos clãs italianos. Ele não tergiversa, não faz concessões. Seu livro-dossiê é um arsenal de informações altamente destrutivas. E, nisso tudo, ele é sempre movido por ela, a raiva.

O importante disso tudo é mostrar que a raiva pode, sim, ser trabalhada em prol de um mundo melhor. Não estou falando de extremismos. A raiva não precisa necessariamente conduzir ao jacobinismo, ao fundamentalismo, à luta armada.

Duvido, por exemplo, que Cristo não tivesse raiva dos romanos; Gandhi dos colonos ingleses; Luther King do racismo. A não-violência é uma forma da litígio. Se estes líderes não formaram brigadas e guerrilhas foi porque, como Saviano, acreditaram no poder da palavra, da informação, da justiça e do argumento. Todos parecem ter a mesma consciência do autor de uma frase que li outro dia: "a informação é uma granada de mão". Não sei se o deputado ameaçado pelas mílicias do Rio, Marcelo Freixo, também tem raiva, mas acho bem possível.


Eu tenho. Sinto raiva dos motoqueiros que furam o sinal em alta velocidade. Dos políticos que roubam alegando falta de regras claras (que tal o mandamento "não furtarás"?). Do idiota que finge dormir para não ceder o lugar no metrô para a velhinha. De quem fura a fila. De quem abusa de uma criança ou de uma mulher. De quem age com os outros como senhor de engenho. De quem se impõe pela força. De quem tem todas oportunidades e não ajuda em nada a melhorar nosso "belo quadro social".

E você? Sente raiva? Pois então reaja. A solução para os nossos problemas não é a docilidade dos homens cordiais. Não é dar a outra face. Faça algo, nem que seja como as pessoas do filme "Rede de Intrigas", que vão para a janela e gritam:

"ESTOU COM RAIVA PRA CACETE E NÃO VOU MAIS TOLERAR NADA DISSO!!!!"

Acredite. A raiva pode ser o elixir para a sua alma e o dínamo para um mundo melhor.

domingo, 24 de maio de 2009

Hip to be square

Anel da pureza exalta virgindade e vira moda (Fonte: O Dia Online)
Meninas copiam os ídolos Jonas Brothers e adotam o acessório, que marca sua opção pelo sexo só após o casamento
POR AMANDA PINHEIRO, RIO DE JANEIRO

Rio - Não deu muito certo com Britney Spears nem com Miley Cyrus, a Hannah Montana. Mas bastou os ‘irmãos bom partido’ Jonas Brothers passarem por aqui para que o voto de castidade, simbolizado pelo anel da pureza, virasse febre entre fãs da banda. Os irmãos Joe, 19 anos, Kevin, 21, e Nick, 16 — que atraíram um batalhão de jovens à Apoteose, ontem —, prometeram: sexo, só depois do casamento. Inspiradas no trio, Natasha, Marianne, Angelica e muitas outras fãs, também. Os pais e a Igreja disseram amém à nova moda.

A estudante Marianne Godoy, 14 anos, já tinha ouvido falar de anel da pureza, mas só começou a usá-lo quando passou a seguir os Jonas Brothers, que usam-no na mão direita. A onda lançada pelo trio também contagiou suas amigas Natasha Novaes, 15, e Angelica Martins, 16. As três fizeram seus votos de castidade até o casamento e não tiram o anel do dedo nem por um decreto.

QUALQUER ANEL VALE

Na falta de uma réplica do anel exato usado pelos meninos, vale escolher qualquer modelo. O que importa é a simbologia. “Quem ama espera. Acredito nisso e vou fazer o mesmo. Meu namorado vai ter que esperar”, decretou Angelica. Para reforçar o compromisso, as amigas o repetem para as outras, como um pacto. “Mesmo que os Jonas quebrem a promessa, continuamos com o voto”, prometeu Natasha.

( ... )

***

Parem o mundo, eu quero descer. É por isso que eu leio Allan Sieber:
Mommy's Boys 1, Mommy's Boys 2, Mommy's Boys 3, Mommy's Boys 4

domingo, 10 de maio de 2009

Por uma vida menos ordinária

Diz a Wikipedia: "O planejamento estratégico é um processo gerencial contínuo e sistemático, que diz respeito à formulação de objetivos para a seleção de programas de ação e para sua execução". Eu não queria começar meu texto caindo no clichê da definição de uma expressão, mas achei importante situar em linhas gerais este conceito que admito não ter know-how suficiente para analisar em mais detalhes.

O fato é que, no meu imaginário, "planejamento estratégico" associava-se a executivos usando laptops em salas vips de aeroportos ou homens de terno perguntando na livraria Galáxia, do Centro (onde eu trabalhei), o preço do livro "A Arte da Guerra". Em nossas mentes binárias, costumamos achar que o que está neste mundo corporativo "Yang" não cabe no mundo "Yin" da criação artística.

Nesta linha de raciocínio, "planejamento estratégico" pode parecer quase um antônimo de "poesia". Mas não é verdade. Um exemplo de que os recursos de geração de riqueza material podem servir para a criação de riqueza estética é a trajetória do artista "circense" Philippe Martin, retratado no filme "O Equilibrista".

Philippe tinha um sonho: andar por um cabo de aço entre o topo das torres Sul e Norte do World Trade Center, a 415 metros de altura. A pulsão não era a dominar o mundo; nem ele sabia explicar a razão para tentar a façanha. De todas as suas preocupações, porém, a ausência de lógica era menor. Ele tinha o sonho e isto era o bastante para mobilizá-lo num projeto que, se poderia dizer, envolveu meses de planejamento estratégico.

O vento, os seguranças, as torções no cabo de aço, a instalação dos cavaletes. Tudo eram "pontos fracos" ou "ameaças" - usando a terminologia do marketing - a serem levados em conta e superados.

Philippe vive no tempo do "Artista da Fome", mas sua total entrega à arte o aproxima mais do trapezista de outro conto de Kafka: "A Primeira Dor".

Sendo francês, talvez ele tenha sido influenciado pelos ideais de maio de 1968 (ocorrido apenas seis anos antes de seu feito). Seu modus operandi lembra o "terorismo poético" de Hakim Bey, que sugere um slogan para ser pichado no metrô: "ENTRE EM GREVE PELA INDOLÊNCIA & BELEZA ESPIRITUAL".

As interpretações são livres, mas gosto de pensar que Philippe fez o que fez para nos mostrar que uma vida menos ordinária é possível.

O World Trade Center foi criado para ampliar o acúmulo de riqueza na maior potência global? Não: foi feito para potencalizar o acúmulo de arte, a maior riqueza global.