Quem leu o livro e acompanha o noticiário pode imaginar a estranha confluência entre os fatos narrados por Roberto Saviano e os revelados, em entrevista coletiva, pelo delegado da Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) Claudio Ferraz.
Não vou discorrer sobre o monstro criado à margem do Estado, assunto exaustivamente debatido pelos especialistas. Minha reflexão surgiu a partir do livro de Roberto Saviano. Mais especificamente quando falar de quem denuncia e confronta a máfia napolitana.
Diz ele que este militante "deve encontrar alguma coisa que segure o estômago da alma para ir adiante. Cristo, Buda, o compromisso com a sociedade, a moral, o marxismo, o orgulho, o anarquismo, a luta contra o crime, a polícia, a raiva constante e perene, a própria região do Mezzagiorno".
Em seu caso, nascido e criado numa das regiões conflagradas, a potência da luta surge desta "raiva constante e perene" e não da religiosidade ou de uma filosofia política. Raiva esta que, a exemplo dos conterrâneos da Brigada vermelha ou do PCC, ele poderia ter usado para mandar alguns edifícios pelos ares. Mas não. Saviano faz do verbo sua pólvora, sua navalha. O livro é perfuro-cortante. Ooderia ser confiscado em qualquer embarque de voo internacional.
A denúncia, furiosa, atinge no âmago a força econômica, a influência política, a anomia cultural, a brutalidade e a opressora onipotência dos clãs italianos. Ele não tergiversa, não faz concessões. Seu livro-dossiê é um arsenal de informações altamente destrutivas. E, nisso tudo, ele é sempre movido por ela, a raiva.
O importante disso tudo é mostrar que a raiva pode, sim, ser trabalhada em prol de um mundo melhor. Não estou falando de extremismos. A raiva não precisa necessariamente conduzir ao jacobinismo, ao fundamentalismo, à luta armada.
Duvido, por exemplo, que Cristo não tivesse raiva dos romanos; Gandhi dos colonos ingleses; Luther King do racismo. A não-violência é uma forma da litígio. Se estes líderes não formaram brigadas e guerrilhas foi porque, como Saviano, acreditaram no poder da palavra, da informação, da justiça e do argumento. Todos parecem ter a mesma consciência do autor de uma frase que li outro dia: "a informação é uma granada de mão". Não sei se o deputado ameaçado pelas mílicias do Rio, Marcelo Freixo, também tem raiva, mas acho bem possível.

Eu tenho. Sinto raiva dos motoqueiros que furam o sinal em alta velocidade. Dos políticos que roubam alegando falta de regras claras (que tal o mandamento "não furtarás"?). Do idiota que finge dormir para não ceder o lugar no metrô para a velhinha. De quem fura a fila. De quem abusa de uma criança ou de uma mulher. De quem age com os outros como senhor de engenho. De quem se impõe pela força. De quem tem todas oportunidades e não ajuda em nada a melhorar nosso "belo quadro social".
E você? Sente raiva? Pois então reaja. A solução para os nossos problemas não é a docilidade dos homens cordiais. Não é dar a outra face. Faça algo, nem que seja como as pessoas do filme "Rede de Intrigas", que vão para a janela e gritam:
"ESTOU COM RAIVA PRA CACETE E NÃO VOU MAIS TOLERAR NADA DISSO!!!!"
Acredite. A raiva pode ser o elixir para a sua alma e o dínamo para um mundo melhor.

