sábado, 29 de novembro de 2014

BLACK FRIDAY


Compra-se
adaptador ao presente
novo ou usado
nacional, importado
com tecnologia que repare
o impulso
pelas coisas ausentes

Compra-se
aparador de bigode
que afaste da narina
o cheiro de resina
dos amores inconfessados.
Auto-falante
que suplante
a falta de palavra
diante da liberdade.

Compra-se ainda
um abafador
dos mil beijos que estalam
na Rua Augusta
hoje
que estou só.

Troca-se
irremediavelmente
um ruído interno
de 200 decibéis
por externos
ternos, tatuagens, conversas fáceis

Vende-se
Minha vida
por um anúncio de publicidade

São Paulo, 28/11/2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Rio 
Tecido 
Entre o 
Ter saído 
E o ter sido

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

entreabraços

- ... não me lembro o seu nome, mas o sorriso não mudou.
- É André. Tudo bem, nunca fui bom aluno de arte, mas fazia muita arte, era levado. Um menino arteiro. Ou talvez seja a barba.
- Quando você estudou aqui?
- De 1991 a 1994: primeira à quarta série. Mas não me lembro exatamente quais anos eu tive aula contigo.
- Dou aula da primeira à terceira. Só que hoje, não é mais série. É ano. Do primeiro ao terceiro ano.
- Pois é. Faz 20 anos.
- É, muita coisa mudou.
- Engraçado. Falei disso mais cedo com Tia Fátima. Dei uma volta no colégio e achei tudo parecido: as quadras... mas ela disse o mesmo que você. Só que eu só vi as estruturas, e ela estava se referindo a outra coisa. Aí não tenho como saber.
- A gente que é mais velha têm essa impressão. Na sua época, havia meninos que davam trabalho, mas hoje é pior. A gente tem que ter mais cuidado. Os pais passam muito a mão na cabeça.
- Imagino. Querem que o professor... E a tecnologia? Mudou também? As crianças estão mais dispersas?
- Pra gente foi bom, eles não usam na aula. Agora as salas têm data-show, fica mais fácil mostrar as obras.
- Você está trabalhando agora? Sinto que você quer falar e eu quero escutar. Podíamos tomar um café.
- Já estou quase terminando o meu dia, estou me preparando para ir embora, adiantando algumas coisas, terminando algumas coisas.
- Aqui não tem um café?
- Já tá tudo fechado.
- Bom. Uma coisa não mudou, o teu brilho no olhar. É a impressão que mais ficou daquela época.
- Eu gosto do que faço. É importante ter esse espaço... Mas é difícil. Há pouco tempo atrás fiz um outro curso, é difícil.
- Outra graduação?
- Sim, já tinha feito Belas Artes, e agora Pedagogia. Porque tem que fazer. Mas fico imaginado. É muito difícil a pessoa dar aula só com aquilo lá, sem ter tido a experiência.
- Aqui você está há quantos anos?
- Trinta e cinco, mas não conta para ninguém.
- Pois é. E eu já saí há 20. Virei jornalista. E nesse tempo fiquei meio perdido por aí. Agora estou juntando alguns estilhaços. Vim visitar minha família - foi aniversário da minha mãe na sexta - e hoje estava indo ao MAR (Museu de Arte do Rio). Passei por aqui e resolvi entrar pra ver. Fui vendo as coisas e me lembrando. O engraçado é que as professoras que eu lembro são as que mais influenciaram na minha vida: a Tia Arilma, de Português, a Fátima, de Matemática, que foi meu primeiro contato afetivo com Pernambuco, a Tia Ângela, da Biblioteca, que contava as histórias de mitologia, de Zeus, e você. Vocês me deram a base, as letras. E a arte transformou minha vida, se tornou uma das coisas mais importantes. Faço poesia. Mas até hoje não aprendi a desenhar. De vez em quando eu até tento...
- A gente fica com muito medo do papel em branco. Tem que esquecer isso e começar a brincar com os materiais, sem se preocupar muito com o resultado, com o que vai sair.
- Exato. O mundo é muito racional...
- ...cartesiano...
- Criar alguma coisa parece até pecado.
- É muita coisa que a gente guarda, vai acumulando, parece que não vai aguentar. E a gente é cobrado e se cobra demais: "tem que ser assim".
- Quando eu tento desenhar, tento usar carvão. Justamente...
- Porque parece mais com o lápis.
- Sim, mas também é pra sentir algo mais instintivo. Algo que não passe por essa racionalidade. Me sinto mais homem das cavernas.
- Bota uma música que você gosta, recorta alguma coisa, cola, passa tinta por cima. Vai brincando! Sem pensar no resultado! O resultado você talvez até chegue, às vezes você só vai saber lá na frente.
- Está vendo? Continuo aprendendo com você.
- Você está indo no MAR?
- Sim, fui agora no CCBB. Queria aproveitar. Ainda não fui lá.
- Está tendo uma exposição do Guignard lá, bem legal, sobre as influências do Oriente... E tem um bistrô, uma cobertura. Dá pra tomar um café, é bem agradável. Só não sei até que horas fica aberto.
- São quatro e dez. Desculpe, acho que já atrapalhei bastante o seu trabalho.
- Que nada. Agradeço a visita. É bom rever os alunos mais velhos para ver... que a gente fez..., que não está...,
- ...obrigado pelo brilho no olhar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Carnaval: tempo de vingança" *

Já não se fazem mais seres vegetativos como antigamente,

    mas ainda nos aberram
  com muitas armas
 de normatização em massa.

ainda nos negam
a possibilidade de afeto,
(mantêm o afeto)
(((sob controle de natalidade)))

assim que

a violência
 é a única saída possível.

         então pega

  cada segredo guardado
    cada loucura gestada
      cada silêncio intifado
       cada palavra empedrada no peito

        e lança tudo neles!

   Somos todos Quilombo!

Viva em Olinda a utopia em brasa
da vendetta

Não com a violência de quem marcha,
 a de quem dança - vamos!
Decepar reis! Coroar reis!
Imolar espelhos! Juntar estilhaços 
num carretel perfumado

só pra perguntar:

POR QUE NÃO 
A PUREZA?


* Frase pichada em um muro de Olinda