Não me passem o ponto,
não me façam dono da rua.
Guardem castelos, amuradas
e as pinturas abstratas
que adornam suas salas.
Pois eu só quero ser pirata.
Outros não me tomem por messias,
esperando que os guie
rumo às terras prometidas
de suas próprias almas.
Pois sou apenas nefelibata.
E não me queiram por inteiro,
estereótipo monolítico,
pois há frações de mim
em livros, pessoas, clichês e retratos.
O entendimento é sempre raro.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Viva o bufão!
As declarações ontem do Tiririca no Congresso (“Cheguei dando sorte”, sobre o aumento de 70% no salário dos parlamentares) me fizeram mudar de opinião.
Eu sempre defendi a eleição dele (assumindo que não tenho juízo formado sobre a questão do analfabetismo), agora acho que ele tem que ser reeleito, se for o caso.
A declaração dele me lembrou daquele livro “Elogio da Loucura”. Então, parafraseando Erasmo de Rotterdam: “O palhaço é o único que tem autorização para dizer a verdade”.
Tenho a expectativa de que o Tiririca será uma peça fundamental na próxima legislatura, denunciando pelo avesso – o avesso da histeria – as dissimulações e o corporativismo dos homens públicos; lançando luz nas jogadas espúrias feitas no escurinho do cinema; e desnudando o lado picaresco da política.
Ele será a mosca na sopa que vai mostrar o quanto nos anulamos como cidadãos e o quanto somos culpados pela malversação dos recursos públicos.
A política não se faz sem bufões, e o Tiririca pode se tornar o maior deles.
Se isso acontecer, melhor do que tá vai ficar.
************
Antes de me atirar tomates, leia isso aqui.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Mercado negro
Comemorei meu aniversário em uma praça da Zona Sul. Nesta sublime ocasião, presenciei um fato que jamais imaginei viver neste pouco mais de um quarto de século de vida. Um crime contra a moral, os bons costumes e os valores mais caros à família brasileira. Um fato capaz de ofuscar o brilho da minha celebração. Uma ilegalidade que clama pela imediata intervenção do Bope! Da Interpol!! Da Otan!!!! Eu vi pessoas traficando........... cerveja.
Como diriam os PMs, os meliantes circulavam pelo local em atitude suspeita. Aproximavam-se dos populares e ofereciam o entorpecente - cerveja Itaipava - acondicionada em sacolés, digo, sacos plásticos. Para evitar o flagrante dos guardas municipais (uns três ou quatro faziam ronda), os traficantes esconderam seus isopores e gelo há alguns quarteirões da praça. N0 fim, evadiram sorrateiramente com o produto da atividade criminosa.
É lamentável, mas é verdade. Em 10 de dezembro de 2010 eu comprei cerveja no mercado negro. Preparem o termo circunstanciado e as algemas.

Após militarizar a Lapa, hoje um inofensivo polo cultural onde se ouve pagode e se bebe Smirnoff Ice entre viaturas da polícia e agentes da CET-RIO; após colocar guardas para perseguir vendedores de coco e jogadores de "altinho" na praia... a Prefeitura conseguiu derrotar mais um inimigo público. Tente adivinhar qual:
Flanelinhas? Não. Estes se multiplicaram com a privatização das vagas da Zona Sul.
O mau atendimento nos hospitais? Também não.
O baixo salário dos professores? Este ainda está numa média de R$ 597.
O mau atendimento nos hospitais? Também não.
O baixo salário dos professores? Este ainda está numa média de R$ 597.
A tia que vendia cerveja na praça em escala artesanal? Sim!
Nada contra o ordenamento urbano, mas o bom senso é fundamental. Pois senão... Qual será o próximo passo? Prender baleiros? Pipoqueiros? Teremos um dia que recorrer ao mercado negro de fotógrafos lambe-lambe?
Basta!!
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Poema das seis bilhões de faces
Em um dado há seis faces
Em dois, 36 combinações
Agora imagine você
tudo que pode ocorrer
num planeta de seis bilhões
Em dois, 36 combinações
Agora imagine você
tudo que pode ocorrer
num planeta de seis bilhões
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Frase do dia
Complementando o texto de ontem:
"Somos ousados para agir, mas ao mesmo tempo gostamos de refletir sobre os riscos que pretendemos correr. Para outros homens, ao contrário, ousadia significa ignorância e reflexão traz a hesitação. Deveriam ser justamente considerados mais corajosos aqueles que, percebendo claramente tanto os sofrimentos quanto as satisfações inerentes a uma ação, nem por isso recuam diante do perigo". (Tucídides)
"Somos ousados para agir, mas ao mesmo tempo gostamos de refletir sobre os riscos que pretendemos correr. Para outros homens, ao contrário, ousadia significa ignorância e reflexão traz a hesitação. Deveriam ser justamente considerados mais corajosos aqueles que, percebendo claramente tanto os sofrimentos quanto as satisfações inerentes a uma ação, nem por isso recuam diante do perigo". (Tucídides)
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Envilhecendo
Quando somos jovens, idealistas e impetuosos, não percebemos que para mudar a realidade é preciso conhecê-la. Pretendemos transformar o mundo com palavras de ordem e manifestos... Guiamo-nos por resenhas mal escritas de teorias libertárias, mas não conhecemos o verdadeiro preço da liberdade. Nem do aluguel.
Aos olhos de quem "mal começou a conhecer a vida" a fase adulta é indissociável de uma certa traição. Parece impossível passar dos 30 sem "vender-se ao sistema", como se a sucessão de dias e noites amolecesse os ideais, fazendo de revolucionários, pequenos burgueses e de poetas, gerentes de marketing.
De fato, os anos dão um novo significado à expressão "fim do mês". Mas tornar-se adulto vai muito além. É dar o adeus definitivo à placenta. Alguns dos meus livros prediletos falam desta jornada, como "O Apanhador no Campo de Centeio" e "O Encontro Marcado", que eu recomendo veementemente.
Para virar um mito do rock, o caminho mais apropriado ainda é seguir o lema "viva rápido, morra cedo", como fizeram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain, que não passaram dos 27 anos. Ou James Dean, morto aos 24.
Mas há quem não considere morrer de overdose o supra-sumo do heroísmo. A juventude é a fase mais linda da existência, mas, convenhamos: o amadurecimento tempera as paixões. Deslocar-se pelas veredas da política, do amor, da amizade com autoconhecimento e sem a histeria da juventude é muito mais produtivo, pelo menos a longo prazo.
No fim das contas, o importante é lutar contra o comodismo. E neste ponto, me lembro sempre do filme "Edukators". Em um dado momento, um executivo fala para um grupo de jovens revolucionários que o sequestrara que a transição para a idade adulta é sutil, e antes que se deem conta eles estarão votando nos candidatos conservadores. No fim do filme, após escapar de um cerco, eles respondem com um bilhete: "algumas pessoas não mudam".
Aos olhos de quem "mal começou a conhecer a vida" a fase adulta é indissociável de uma certa traição. Parece impossível passar dos 30 sem "vender-se ao sistema", como se a sucessão de dias e noites amolecesse os ideais, fazendo de revolucionários, pequenos burgueses e de poetas, gerentes de marketing.
De fato, os anos dão um novo significado à expressão "fim do mês". Mas tornar-se adulto vai muito além. É dar o adeus definitivo à placenta. Alguns dos meus livros prediletos falam desta jornada, como "O Apanhador no Campo de Centeio" e "O Encontro Marcado", que eu recomendo veementemente.
Para virar um mito do rock, o caminho mais apropriado ainda é seguir o lema "viva rápido, morra cedo", como fizeram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain, que não passaram dos 27 anos. Ou James Dean, morto aos 24.
Mas há quem não considere morrer de overdose o supra-sumo do heroísmo. A juventude é a fase mais linda da existência, mas, convenhamos: o amadurecimento tempera as paixões. Deslocar-se pelas veredas da política, do amor, da amizade com autoconhecimento e sem a histeria da juventude é muito mais produtivo, pelo menos a longo prazo.
No fim das contas, o importante é lutar contra o comodismo. E neste ponto, me lembro sempre do filme "Edukators". Em um dado momento, um executivo fala para um grupo de jovens revolucionários que o sequestrara que a transição para a idade adulta é sutil, e antes que se deem conta eles estarão votando nos candidatos conservadores. No fim do filme, após escapar de um cerco, eles respondem com um bilhete: "algumas pessoas não mudam".
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Majas e Machos
Nos últimos meses, tenho conhecido mais profundamente algumas pessoas de espírito livre. Muitas são do sexo feminino e, entre estas, um perfil vem se destacando: as majas. Sabe aquelas mulheres decididas e dotadas de uma personalidade forte dos filmes de Almodóvar, das pinturas de Goya? São elas.
Essas criaturas formam um arquétipo oposto ao da Amélia e nem sempre são plenamente entendidas pelos homens, embora exerçam sobre eles um magnetismo natural. Não à toa, algumas se divorciam, brigam com o pai, são consideradas ovelhas negras etc.
Curiosamente, desta minha amostragem, todas as majas que são mães (solteiras, em geral) têm filhas e não filhos. Talvez seja devido a algum gene X ultradominante. É o caso da própria Leila Diniz, ícone maior das majas brasileiras.
Aprendi a admira-las também pela capacidade de passar da juventude para a idade adulta por "parto natural", pela própria potência que trazem em si. Nós, homens, em geral precisamos de "cesariana" para deixarmos de agir, já diria Caetano, como bezerros gritando "mamãe".
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Pré-eu
Te agarras ao meu "pré",
minha imagem desbotada
de minh'alma, a bordoadas,
fazes fruta cristalizada
Tudo flui,
mutatis mutandis
e hoje não caibo mais
na pele que tinha antes
na pele que tinha antes
A traição é a insistência
de quem cimenta os próprios pés,
de quem cimenta os próprios pés,
louva a obsolescência
e o beat de Pã
teme seguir
Alguns homens são cães,
outros gatos ou pavão.
Os sábios simplesmente
se tornam o que são
Então falando sério:
não insista, por favor
em tirar cubo de hemisfério
a golpes de "sim senhor"
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Suspensão do juízo
Escrevi para um protético
em hexâmetro dactílico:
"viva o cubismo sintético!
abaixo o cubismo analítico!"
Pro meu pai, hai-kai
sobre a vida de Mordecai
Nariz-de-cera pra Mulher Pêra
behaviorismo em samba-canção
na caixa de correio do irmão
Responderam-me todos:
"Anarriê!"
e questionaram
o porquê do epoché
em hexâmetro dactílico:
"viva o cubismo sintético!
abaixo o cubismo analítico!"
Pro meu pai, hai-kai
sobre a vida de Mordecai
Nariz-de-cera pra Mulher Pêra
behaviorismo em samba-canção
na caixa de correio do irmão
Responderam-me todos:
"Anarriê!"
e questionaram
o porquê do epoché
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Algo assim
Um corpo calcinado de sol,
liberdade e desabrigo.
Candura Nouvelle Vague
nos infinitos feixes do sorriso.
E no delta do umbigo,
o paraíso.
terça-feira, 6 de julho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
No mundo de "1984"
No mundo de "1984", os seres humanos eram vigiados por câmeras. O controle da massa era reforçado massivamente pelos meios de comunicação e não havia espaço para a contestação - até porque o vocabulário era paulatinamente empobrecido, limitando a capacidade de expressão. Para canalizar a insatisfação pessoal, o sistema criava inimigos externos. Estas figuras também inspiravam temor nos cidadãos e os persuadiam a aceitar a limitação de suas liberdades individuais. Também havia eventos catárticos de histeria. E a produção cultural não era fruto das subjetividades individuais, mas de um apanhado aleatório de clichês.
Ainda bem que tudo não passa de ficção.
Ainda bem que tudo não passa de ficção.
Castrações
(sequência do post anterior)
A história da humanidade não passa de uma série de castrações. Castração de nossas ideias, pela invenção das palavras. Castração do nosso entendimento de mundo, pela abolição da metafísica. De nossa liberdade sexual, pelo moralismo. De nosso senso crítico, pela alienação. De nosso intelecto, pela televisão. Da poesia, pelo pop. Da beleza, pelo kitsch.
É por isso que o mundo hoje está povoado por egocratas coprófagos entorpecidos pela tecnologia.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
O FIM ESTÁ PRÓXIMO!!!
domingo, 16 de maio de 2010
Pragmatismo é pouco
A política brasileira não é para iniciantes. Repare:
- A candidata presidencial do Partido Verde é evangélica e se opõe à descriminalização do aborto e da maconha.
- O presidente do país, de um partido de esquerda, apoia a candidata a governadora da oligarquia no Maranhão, contra o candidato do Partido Comunista, e o candidato a senador da Igreja Universal no Rio de Janeiro.
- A Prefeitura do Rio de Janeiro faz um governo liberal com o apoio de partidos de esquerda (PT, PSB, PCdoB, PDT).
- O candidato de oposição à presidência promete fazer um governo de continuidade.
- O ex-Partido Comunista Brasileiro (atual PPS) é aliado do ex-Arena (atual DEM).
E por aí vai...
Como diria Tim Maia: "O Brasil é o único país em que puta goza, cafetão sente ciúmes, traficante é viciado e pobre é de direita"
sábado, 8 de maio de 2010
Nós
No meio da multidão
ou sob os lençóis
-o que somos nós?
De voo ou chão,
se faz nossa ligação
entre o "pré" e o "pós"?
Teoria dos jogos
ou acasalamento preferencial?
Inquebrantável lógos
ou impulso hormonal?
O que nos faz ser tão "insustentável leveza do ser"
e tão classificados de jornal.
Uma coisa é certa:
Nos acertamos errando.
Nossa linha não é reta
E nossa meta
não é plano.
Penso que somos apenas nós,
que por trilhas barrocas
vamos do reino de Oz
ao de Maria, a Louca.
Viver nos outros vs. Viver com os outros
Certa feita, um unicórnio foi capturado em um reino não muito distante no tempo e no espaço. Rapidamente, o povo se juntou para ver o animal, exibido em praça pública. Diante da multidão, o rei foi o primeiro a discursar, cumprimentando o caçador pelo feito e afirmando que aquele momento era o marco de uma nova e venturosa fase para toda a região. Um feriado de cinco dias foi decretado para que todos pudessem ver e apreciar o ser mítico.
A notícia se espalhou e, no segundo dia, um esquema especial de segurança teve que ser montado para organizar as filas, pois a quantidade de pessoas, agora também provenientes de cidades vizinhas, superava todas as expectativas. Como era de se esperar, a reação do público pendia do espanto dos que jamais haviam visto espetáculo tão belo à incredulidade dos que desconfiavam de uma farsa bem montada.
Multiplicaram-se também os comerciantes, que vendiam supostos chumaços da crina e do rabo do unicórnio como talismãs. Os estudiosos, porém, foram os primeiros autorizados a tocar no chifre do ungulado. Dele recolheram amostras para análise mais minuciosa. Além disso, tomaram notas sobre cada milímetro do bicho, na tentativa de reunir elementos para identificar ancestrais e classificá-lo na árvore da vida.
No terceiro dia, saciadas as primeiras curiosidades, os jornais mudaram o enfoque: entrou em pauta a sexualidade do unicórnio. Nos mais conservadores, a discussão restringia-se à sua possível esterilidade; os tabloides populares devassavam sem pudores as práticas copulatórias e fomentavam as especulações mais pueris. Um deles oferecia alta recompensa para quem conseguisse capturar um unicórnio fêmea para promover o acasalamento.
No amanhecer do quarto dia, surpreendentemente, o chifre do unicórnio desapareceu sem que ninguém tivesse visto. Debates acalorados foram travados para explicar o fenômeno. Firmou-se no senso comum a versão de que tudo não passara de alucinação coletiva. Todos estudos foram desacreditados e aqueles que as traças não consumiram foram considerados heréticos e, como tais, irreversivelmente destruídos.
Ah, já vinha me esquecendo. No quinto dia, o unicórnio sem chifre que já não despertava o interesse de ninguém foi libertado e passou a viver entre cavalos e jumentos, já não mais como figura pública.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Desconfie sempre
O que eu quis dizer no post anterior é que forma e conteúdo são coisas distintas. Você pode usar uma estética de vanguarda para fazer algo extremamente conservador como também pode ser extremamente transgressor valendo-se de uma forma acadêmica. O e-mail é a mensagem, mas o meio nem sempre é a mensagem. Um soneto pode ser mais revolucionário do que um poema concreto; um jazz mais visceral do que uma música punk. E na vida também é assim. A promiscuidade pode ser mais careta do que uma relação monogâmica. Uma droga pode estimular mais a produtividade do que abir as "portas da percepção". O estatuto de um partido esquerdista pode ter menos valor político do que um discurso de formatura. Para prevenir-se contra empulhações, DESCONFIE SEMPRE!!
domingo, 28 de março de 2010
Choques de conservadorismo
Não há nada mais conservador do que o uso do choque como proposta estética e política, tendência manifestada em obra "hiperrealistas" que se propõem a mostrar a realidade "nua e crua", sem metáforas, plots ou retoques photoshopescos.
Figuram nesta categoria filmes como "Ken Park", com suas cenas de masturbação, genitálias masculinas e espancamentos, "Amarelo Manga", com seu tiro esportivo em cadáveres e empalações com escovas de cabelo, entre outras obras.
Importante frisar que nem todas modalidades de sadismo artístico derivam do naturalismo. Algumas flertam com o surrealismo, com o "teatro da crueldade" etc., mas nestes casos não há pretensão de se abrir nas telas, palcos ou páginas de livro uma janela para a realidade objetiva.
O mundo não é - e nem deve ser - um Paraíso asséptico, eugênico, e, da mesma forma, à arte não cabe buscar apenas o bom e o belo. Mas aqueles que carregam nas tintas para mostrar o sujo e brutal como sendo "A" verdade, devem parar de posar cinicamente como malditos e contestadores.
O embrulho no estômago, longe de gerar consciência crítica, só reforça estigmas e preconceitos. A repulsa é muito menos libertária do que a identificação.
Veja os exemplos citados: ao reforçar a visão dos pobres como seres animalescos, "Amarelo Manga" favorece o discurso de "barbárie vs. civilização" e lembra até a forma como judeus eram tratados nos filmetes de propaganda nazista.
Já "Ken Park" relaciona o sexo com tantas perversões que funciona muito bem como libelo do neoconservadorismo americano.
A discussão poderia se estender muito mais, mas, neste momento, prefiro recorrer aos versos para tentar me fazer entender melhor.
***
Para fazer um retrato que choque a burguesia*
com um prato cheio de fezes
em seguida ponha ali
qualquer coisa grosseira
qualquer coisa complexa
qualquer coisa feia
qualquer coisa útil
para um travesti
depois ponha a câmera numa lixeira
em um beco
em uma viela
ou em uma favela
se esconda atrás da lixeira
sem dizer nada
sem se mexer...
É possível que o travesti chegue rápido
mas ele pode levar longos anos
antes de se decidir
Não perca a fibra
espere
espere se ele levar longos anos
a rapidez ou a demora da chegada do travesti
não tem qualquer diferença
para o êxito do filme
Quando o travesti chegar
se ele chegar
filme em plano-sequência ao som de death metal
espere que o travesti entre na cela
e quando ele estiver lá dentro
feche lentamente o ângulo no rosto dele
depois
extraia um a um todos os seus dentes
tendo o cuidado de não se sujar de sangue
Filme em close o prato de fezes
separando a parte mais repugnante
para o travesti
filme também as paredes pichadas e a umidade do ambiente
a poeira incandescente
e o barulho dos fungos no calor da noite
e depois espere que o travesti se decida a comer
Se o travesti não comer as fezes
É um mau sinal
sinal que a plateia sairá pra jantar
mas se ele comer as fezes é um bom sinal
sinal de que seu nome brilhará
Então você retira delicadamente
um pouco da merda do prato
e escreve na parede os créditos finais
* paródia de "Pour faire le portrait d'un oiseau"
quinta-feira, 4 de março de 2010
Abuso de domínio público
Sem querer causar arrepios em meus colegas jurisconsultos, estava pensando ontem que deveria haver alguma previsão legal para um novo tipo de crime: abuso de domínio público. Depois de a MTV ter se apropriado da estética surrealista e de um fabricante de carro ter lançado um modelo "Picasso", agora é o pintor Van Gogh que tem o nome tomado em vão. O homem cuja obra completa, um ano após sua morte, no testamento do irmão Theo, era avaliada em 4.000 florins (R$ 2.200) passou a designar o pacote de serviços de um banco que lucrou R$ 5,5 bilhões no Brasil em 2009.
A assinatura do artista está lá, na brochura e nos comerciais de TV , respaldando as ofertas de atendimento personalizado, desconto de 50% nas mensalidades dos cartões Visa, Gold ou Platinum, quatro saques internacionais no cartão múltiplo, ilimitadas transferências entre contas na própria instituição, 8 emissões de DOC's ou TED's nos canais eletrônicos... O portfólio do banco só não inclui agonia, rejeição, crises nervosas, frenesi ou surtos psicóticos.
O que Van Gogh acharia disso tudo? Talvez algo do que ele tenha escrito forneça indícios de qual seria sua opinião:
"Sensier diz (...) que esta indiferença [do público] seria bastante dura para ele se sentisse necessidade de usar sapatos bonitos e se gostasse da vida de rico; mas, dizia "já que uso tamancos, ficarei bem". (...) Espero não perder jamais de vista "que se trata de andar de tamancos". Quero dizer com isto que se trata de estar contente em ter bebida, comida, cama e roupa. De estar, em suma, contente com o que têm os camponeses. (...) Aquele que deseja fazer algo de bom ou útil não deve se apoiar na aprovação geral, nem desejá-la. Ao contrário, não deve esperar simpatia ou ajuda de mais do que uns poucos espíritos ou, até mesmo, de pouquíssimos".
"Devemos pintar os aldeões como como se fôssemos um deles, sentindo e pensando como eles. Como se não pudesse ser de outro modo. Os camponeses formam um mundo à parte, e, em muitos pontos, muito melhor que o mundo civilizado".
A assinatura do artista está lá, na brochura e nos comerciais de TV , respaldando as ofertas de atendimento personalizado, desconto de 50% nas mensalidades dos cartões Visa, Gold ou Platinum, quatro saques internacionais no cartão múltiplo, ilimitadas transferências entre contas na própria instituição, 8 emissões de DOC's ou TED's nos canais eletrônicos... O portfólio do banco só não inclui agonia, rejeição, crises nervosas, frenesi ou surtos psicóticos.
O que Van Gogh acharia disso tudo? Talvez algo do que ele tenha escrito forneça indícios de qual seria sua opinião:
"Sensier diz (...) que esta indiferença [do público] seria bastante dura para ele se sentisse necessidade de usar sapatos bonitos e se gostasse da vida de rico; mas, dizia "já que uso tamancos, ficarei bem". (...) Espero não perder jamais de vista "que se trata de andar de tamancos". Quero dizer com isto que se trata de estar contente em ter bebida, comida, cama e roupa. De estar, em suma, contente com o que têm os camponeses. (...) Aquele que deseja fazer algo de bom ou útil não deve se apoiar na aprovação geral, nem desejá-la. Ao contrário, não deve esperar simpatia ou ajuda de mais do que uns poucos espíritos ou, até mesmo, de pouquíssimos".
"Devemos pintar os aldeões como como se fôssemos um deles, sentindo e pensando como eles. Como se não pudesse ser de outro modo. Os camponeses formam um mundo à parte, e, em muitos pontos, muito melhor que o mundo civilizado".
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Aforismas carnavalescos
- O suposto fim da história é tão somente a hegemonia global do desencantamento puritano despido de seu conteúdo religioso. O mundo da racionalização, do pragmatismo materialista, triunfou. O panóptico virou realidade e mesmo as pessoas mais assistemáticas agora pensam duas vezes antes de dar uns pulinhos meramente impulsivos no corredor vazio do prédio comercial.
- O extermínio e o etnocídio das culturas tradicionais nos deixou sem uma base de comparação existencial que potencialmente serviria de modelo para mudanças sociais. Só nos resta pensar negativamente, refletir sobre como as coisas poderiam ser e não são. O negativismo é, positivamente, o desafio à nossa criatividade, que pode derrotar os paquidermes que aí estão.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Do blog ao bloco
DICAS PARA O CARNAVAL
(Programação sujeita a mudanças, conforme dicas dos colegas)
SÁBADO 13/2/2010
Céu na Terra - Santa Teresa
06 às 12 h
Empolga às 9 - Botafogo
13 às 19 h
Baile de Máscaras do Exalta Rei! - teatro Odisseia (Lapa)
23h - R$ 18 (lista amiga ou levando alimentos para o Haiti)
DOMINGO 14/2/2010
Cordão do Boitatá - Centro
07 às 16 h
SEGUNDA-FEIRA 15/2/2010
Songoro Cosongo - Santa Teresa
09 às 15 h
Aconteceu - Santa Teresa
14 às 20 h
TERÇA-FEIRA 16/2/2010*
Carmelitas - Santa Teresa
8 às 14 h
A Rocha - Gávea
09 às 14 h
Ansiedade - Laranjeiras
13 às 19 h
Rio Maracatu - Ipanema
15 às 19 h
Orquestra Voadora - Centro
15 às 21 h
*o dia ainda está indefinido, por isso os horários dos blocos estão sobrepostos
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Guerra dos sexos
As mulheres reclamam das consequências tóxicas da revolução que fizeram. Dizem que a igualdade política, econômica e social com os homens as tem forçado a uma vida de super-heroínas, a um extenuante desdobrar-se entre as funções de proletária (ou executiva), mãe, rainha do lar e objeto de desejo para atender expectativas inalcançáveis. Mas e os homens? Quem se preocupa com o mal estar deles? Não é nem um pouco mais fácil a vida dos varões nestes tempos de "Sex And The City" mas, aparentemente, o drama masculino não dá Ibope.
As mulheres de Atenas venceram a guerra de trincheiras contra os homens de Esparta. Ganharam os direito de votar, acasalar livremente e dividir conosco as baias dos escritórios. A despeito das resistências machistas, se mostraram mais competentes em todos estes papéis. E falo com a experiência de quem teve "chefas" em três empregos nos últimos quatro anos.
E o mal estar não termina aí. Em um mundo onde cientistas já são capazes de criar espermatozóides a partir de células-tronco da medula óssea feminina, o homem parece caminhar para a extinção. Nossa falta de pespectivas, aliada às exigências femininas crescentes gera problemas mais imediatos, que conduzem a uma necessidade de reiventar-se e fazer a matrícula na academia. Para ser um macho alfa, o homem pós-moderno, sem a banca de provedor, tem literalmente que rebolar. Saber dançar no salão é uma exigência, mas há outras: vestir-se bem, cozinhar como o Olivier Anquier e ceder o controle remoto no horário do programa da GNT.
É dura a vida do estivador. A nós, bravos guerreiros, sobraram cada vez menos alternativas. Alguns já assinaram a rendição incondicional e viraram emos.
Por mais que eu aplauda as mulheres, não posso deixar de prestar solidariedade aos homens. Como forma de protesto, mantenho a minha militância pró-barriga de chope. A minha própria segue proeminente e renitente... até minha chefe ou minha namorada mandarem eu dar cabo dela.
As mulheres de Atenas venceram a guerra de trincheiras contra os homens de Esparta. Ganharam os direito de votar, acasalar livremente e dividir conosco as baias dos escritórios. A despeito das resistências machistas, se mostraram mais competentes em todos estes papéis. E falo com a experiência de quem teve "chefas" em três empregos nos últimos quatro anos.
E o mal estar não termina aí. Em um mundo onde cientistas já são capazes de criar espermatozóides a partir de células-tronco da medula óssea feminina, o homem parece caminhar para a extinção. Nossa falta de pespectivas, aliada às exigências femininas crescentes gera problemas mais imediatos, que conduzem a uma necessidade de reiventar-se e fazer a matrícula na academia. Para ser um macho alfa, o homem pós-moderno, sem a banca de provedor, tem literalmente que rebolar. Saber dançar no salão é uma exigência, mas há outras: vestir-se bem, cozinhar como o Olivier Anquier e ceder o controle remoto no horário do programa da GNT.
É dura a vida do estivador. A nós, bravos guerreiros, sobraram cada vez menos alternativas. Alguns já assinaram a rendição incondicional e viraram emos.
Por mais que eu aplauda as mulheres, não posso deixar de prestar solidariedade aos homens. Como forma de protesto, mantenho a minha militância pró-barriga de chope. A minha própria segue proeminente e renitente... até minha chefe ou minha namorada mandarem eu dar cabo dela.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Risco de vida
Há quem tenha medo de escuro e há quem tenha medo da luz. E também há quem tenha medo de ambos. Como assim? Explico-me. A vida é mais ou menos como aquele jogo "Age of Empires", em que a medida que o jogador se movimenta por um mapa escuro, os caminhos percorridos vão se tornando claros. Mas, fora do videogame, o medo mantém muita gente fora do jogo, em "pause".
Viver é trilhar uma jornada que não se sabe aonde vai dar. Uma experiência que pode ser interrompida a qualquer instante e sobre a qual o nosso controle é limitado. Um caminho sem mapa, com duas dimensões - exterior e interior - repletas de luz e sombra. Um processo incerto como singrar por mares nunca dantes navegados.
Tatear pelo escuro nem sempre é a coisa mais prazerosa do mundo. Explorar o mundo e os subterrâneos da alma pode fazer a pessoa sentir-se como Robinson Crusoé. Encontrar luz pode gerar uma sensação de agressão à retina. É o risco de vida, voltaremos ao assunto mais adiante.
Maquiavel dizia que metade do destino de um soberano depende da virtú, ou seja, de suas próprias habilidades, e a outra metade é decidida pela fortuna, o fator imponderável que você pode chamar de sorte, destino, acaso, deus ou mercado. O mesmo vale para todos nós, soberanos de nós mesmos.
Planos são importantes, mas eficazes num campo limitado. Fora desta zona de conforto, há uma imensa margem de "erro" e às vezes, em vez de exclui-la do cálculo como uma variável irrelevante, o melhor a fazer é contar com ela, ter fé.
Aqui cabe uma observação. Fé não é ausência de razão, muito pelo contrário. A fé só é sólida quando baseada em autoconhecimento. A pessoa que se conhece, sabe qual é a sua jornada no mundo e tem noção do que é capaz de aguentar pode lançar-se no desconhecido com certa tranquilidade de que não ficará desamparado. Corre um risco calculado.
Mas precisamente ai está o grande problema: conhecer-se.
Cagar regra é fácil, o difícil é reiventar-se, mudar para ser fiel à própria essência, contrariar expectativas dos outros, libertar-se de bloqueios sedimentados. As sombras dentro e fora de nós assustam. A luz nos atrai para fora da caverna - citando o mito de Platão - mas ao mesmo tempo nos parece nefasta na medida em que aparentemente nos separa de forma indelével dos colegas de trevas. Estes possivelmente reagirão com olhares cheios de estupefação e censura.
Diante de um processo que se choca com resistências internas e externas, nem todos têm coragem - ou apoio - para fazer a travessia. Por isto permanecem estagnados num estágio psíquico subdesenvolvido, buscando se dissolver na massa.
Para estes existem a televisão e as micaretas.
Viver é trilhar uma jornada que não se sabe aonde vai dar. Uma experiência que pode ser interrompida a qualquer instante e sobre a qual o nosso controle é limitado. Um caminho sem mapa, com duas dimensões - exterior e interior - repletas de luz e sombra. Um processo incerto como singrar por mares nunca dantes navegados.
Tatear pelo escuro nem sempre é a coisa mais prazerosa do mundo. Explorar o mundo e os subterrâneos da alma pode fazer a pessoa sentir-se como Robinson Crusoé. Encontrar luz pode gerar uma sensação de agressão à retina. É o risco de vida, voltaremos ao assunto mais adiante.
Maquiavel dizia que metade do destino de um soberano depende da virtú, ou seja, de suas próprias habilidades, e a outra metade é decidida pela fortuna, o fator imponderável que você pode chamar de sorte, destino, acaso, deus ou mercado. O mesmo vale para todos nós, soberanos de nós mesmos.
Planos são importantes, mas eficazes num campo limitado. Fora desta zona de conforto, há uma imensa margem de "erro" e às vezes, em vez de exclui-la do cálculo como uma variável irrelevante, o melhor a fazer é contar com ela, ter fé.
Aqui cabe uma observação. Fé não é ausência de razão, muito pelo contrário. A fé só é sólida quando baseada em autoconhecimento. A pessoa que se conhece, sabe qual é a sua jornada no mundo e tem noção do que é capaz de aguentar pode lançar-se no desconhecido com certa tranquilidade de que não ficará desamparado. Corre um risco calculado.
Mas precisamente ai está o grande problema: conhecer-se.
Cagar regra é fácil, o difícil é reiventar-se, mudar para ser fiel à própria essência, contrariar expectativas dos outros, libertar-se de bloqueios sedimentados. As sombras dentro e fora de nós assustam. A luz nos atrai para fora da caverna - citando o mito de Platão - mas ao mesmo tempo nos parece nefasta na medida em que aparentemente nos separa de forma indelével dos colegas de trevas. Estes possivelmente reagirão com olhares cheios de estupefação e censura.
Diante de um processo que se choca com resistências internas e externas, nem todos têm coragem - ou apoio - para fazer a travessia. Por isto permanecem estagnados num estágio psíquico subdesenvolvido, buscando se dissolver na massa.
Para estes existem a televisão e as micaretas.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Retrospectiva 2009
É preciso crescer para se tornar quem se é. É preciso mudar para crescer. É preciso se conhecer para mudar. É preciso experimentar para se conhecer. É preciso libertar-se para experimentar.
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