quarta-feira, 20 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Trabalho e tédio

Buscar trabalho pelo salario – nisso quase todos os homens dos países civilizados são iguais; para eles trabalho é um meio,não um fim em si; e por isso são poucos refinados na escolha do trabalho, desde que proporcione uma boa renda.Mas existem seres raros, que preferem morrer a trabalhar sem ter prazer no trabalho: são aqueles seletivos, dificeis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o trabalho mesmo não for a maior de todas as rendas.A esta rara espécie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero, mas também os ociosos que passam a vida a caçar, em viagens, em atividades amorosas e aventuras. Todos estes querem o trabalho e a necessidade, enquanto estejam associados ao prazer, e até o mais duro e difícil trabalho, se tiver de ser. De outro modo são de uma resoluta indolência, ainda que ela traga miséria, desonra, perigo para a saúde e a vida.

Não é o tédio que eles tanto receiam, mas o trabalho sem prazer; necessitam mesmo do tédio para serem bem sucedidos no seu trabalho. Para o pensador e para todos os espiritos inventivos, o tédio é aquela desagradavel “calmaria” da alma, que precede a viagem venturosa e os ventos joviais; ele tem de suportá-la, tem de aguardar em si o seu efeito: – é justamente isso o que as naturezas menores não conseguem obter de si!

Afastar o tédio a todo custo é vulgar: assim como é vulgar trabalhar sem prazer.Algo que talvez distinga os asiáticos, em relação aos europeus, é o fato de serem capazes de uma mais prolongada calma do que estes; mesmo os seus narcóticos agem lentamente e exigem paciência, ao contrario da repulsiva rapidez do veneno europeu, o alcool.

(A Gaia Ciência, Aforismo 42, Nietzsche)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Assim pensamos

A gente se trai o tempo todo
dizendo um monte de não
mirando o lá fascinante
com um pórtico
que um dia penetrará
pedalando bicicleta
de rodinhas.

Atingido esse ponto,
a gente será feliz
pois verá tudo do alto
da cadeia alimentar.


O quanto de nós tiver ficado
pelo caminho
que importância terá?


Nos confortará
pensar que elos
foram feitos
mesmo
para ser perdidos.


Mas se antes
passarem-se anos
de agora aquém,
convém lembrar
dos comprimidos
e outros meios
mais ou menos
violentos
de prender sonhos
em inexpugnáveis
Bastilhas.

Sim.


Chegar lá
valerá o sacrifício,
o tônus perdido.

Valerá
a sodomia
que dá sustento
às putas cafetinadas
que somos agora,
sempre a emular orgasmos
sem messias
que nos devolva
a porção de céu
do olhar,
ou liberte o amor encruado
na carne neurótica.

Sem contar que
quando chegarmos lá
teremos nosso arco do triunfo
e nossa marcha da vitória.

[Vitória que nos permitirá fraudar a estória com insuspeitas folhas de parreira].