
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Coisas de amor
"A Banda", filme israelense, tem uma cena memorável. É quando três egípcios da orquestra militar que se perdera numa nanocidade de Israel são recebidos para jantar na casa de uma família local. O clima é de constrangimento, ninguém sabe muito bem como agir. Uns desacostumados a receber visitas, não sabem se portar como família bem estruturada; outros, deslocados da cultura a que pertencem, experimentam a agrura de quem é lançado desafortunadamente num ambiente onde inspira hostilidade. Entre eles, apenas o gelo.
A refeição se dá sem qualquer distensão, pelo contrário, a família entra em atrito e o clima pesa ainda mais. Depois, no quarto de bebê, um músico e o pai da criança, de idade aproximada, tentam travar um contato. A afinidade enfim ocorre e, em um dado momento, o israelense se permite expor a visão que tem da vida, cheia de silêncio e solidão. Momento-síntese do filme, a sequência mostra a possibilidade real, e quase sempre negligenciada, da comunicação.
A maior riqueza das relações humanas é o congraçamento. Ele é exequível, mas não faltam fatores externos e internos para culparmos pela falta de sintonia: hierarquia familiar, luta de classes, complexo industrial-militar, (falta de) tempo, imperativos categóricos, cultura de massa, imperialismo, neuroses, vagina dentata...
Nos acomodamos à alienação, por mais que na sombra nossos olhos resplandeçam enormes, como escreveu Drummond. Achamos que nossos ombros não suportam o mundo e, armados até os dentes, mantemos a comunicação em um nível banal como comédia vaudeville.
No fundo, há quem espere a banda passar, tirando tudo do lugar, puxando cada qual de seu canto, curando as dores mundanas. Também há quem busque se contentar com seus paraísos artificiais e os folguedos de Momo. Mas há - e isto é o mais importante - quem encontra a sabedoria de ouvir a banda dentro de si cantando coisas de amor.
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