domingo, 28 de março de 2010

Choques de conservadorismo

Não há nada mais conservador do que o uso do choque como proposta estética e política, tendência manifestada em obra "hiperrealistas" que se propõem a mostrar a realidade "nua e crua", sem metáforas, plots ou retoques photoshopescos.

Figuram nesta categoria filmes como "Ken Park", com suas cenas de masturbação, genitálias masculinas e espancamentos, "Amarelo Manga", com seu tiro esportivo em cadáveres e empalações com escovas de cabelo, entre outras obras.

Importante frisar que nem todas modalidades de sadismo artístico derivam do naturalismo. Algumas flertam com o surrealismo, com o "teatro da crueldade" etc., mas nestes casos não há pretensão de se abrir nas telas, palcos ou páginas de livro uma janela para a realidade objetiva.

O mundo não é - e nem deve ser - um Paraíso asséptico, eugênico, e, da mesma forma, à arte não cabe buscar apenas o bom e o belo. Mas aqueles que carregam nas tintas para mostrar o sujo e brutal como sendo "A" verdade, devem parar de posar cinicamente como malditos e contestadores.

O embrulho no estômago, longe de gerar consciência crítica, só reforça estigmas e preconceitos. A repulsa é muito menos libertária do que a identificação.

Veja os exemplos citados: ao reforçar a visão dos pobres como seres animalescos, "Amarelo Manga" favorece o discurso de "barbárie vs. civilização" e lembra até a forma como judeus eram tratados nos filmetes de propaganda nazista.

Já "Ken Park" relaciona o sexo com tantas perversões que funciona muito bem como libelo do neoconservadorismo americano.

A discussão poderia se estender muito mais, mas, neste momento, prefiro recorrer aos versos para tentar me fazer entender melhor.

***

Para fazer um retrato que choque a burguesia*

Filme de início uma cela
com um prato cheio de fezes
em seguida ponha ali
qualquer coisa grosseira
qualquer coisa complexa
qualquer coisa feia
qualquer coisa útil
para um travesti
depois ponha a câmera numa lixeira
em um beco
em uma viela
ou em uma favela
se esconda atrás da lixeira
sem dizer nada
sem se mexer...
É possível que o travesti chegue rápido
mas ele pode levar longos anos
antes de se decidir
Não perca a fibra
espere
espere se ele levar longos anos
a rapidez ou a demora da chegada do travesti
não tem qualquer diferença
para o êxito do filme
Quando o travesti chegar
se ele chegar
filme em plano-sequência ao som de death metal
espere que o travesti entre na cela
e quando ele estiver lá dentro
feche lentamente o ângulo no rosto dele
depois
extraia um a um todos os seus dentes
tendo o cuidado de não se sujar de sangue
Filme em close o prato de fezes
separando a parte mais repugnante
para o travesti
filme também as paredes pichadas e a umidade do ambiente
a poeira incandescente
e o barulho dos fungos no calor da noite
e depois espere que o travesti se decida a comer
Se o travesti não comer as fezes
É um mau sinal
sinal que a plateia sairá pra jantar
mas se ele comer as fezes é um bom sinal
sinal de que seu nome brilhará
Então você retira delicadamente
um pouco da merda do prato
e escreve na parede os créditos finais


* paródia de "Pour faire le portrait d'un oiseau"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Abuso de domínio público

Sem querer causar arrepios em meus colegas jurisconsultos, estava pensando ontem que deveria haver alguma previsão legal para um novo tipo de crime: abuso de domínio público. Depois de a MTV ter se apropriado da estética surrealista e de um fabricante de carro ter lançado um modelo "Picasso", agora é o pintor Van Gogh que tem o nome tomado em vão. O homem cuja obra completa, um ano após sua morte, no testamento do irmão Theo, era avaliada em 4.000 florins (R$ 2.200) passou a designar o pacote de serviços de um banco que lucrou R$ 5,5 bilhões no Brasil em 2009.

A assinatura do artista está lá, na brochura e nos comerciais de TV , respaldando as ofertas de atendimento personalizado, desconto de 50% nas mensalidades dos cartões Visa, Gold ou Platinum, quatro saques internacionais no cartão múltiplo, ilimitadas transferências entre contas na própria instituição, 8 emissões de DOC's ou TED's nos canais eletrônicos... O portfólio do banco só não inclui agonia, rejeição, crises nervosas, frenesi ou surtos psicóticos.

O que Van Gogh acharia disso tudo? Talvez algo do que ele tenha escrito forneça indícios de qual seria sua opinião:

"Sensier diz (...) que esta indiferença [do público] seria bastante dura para ele se sentisse necessidade de usar sapatos bonitos e se gostasse da vida de rico; mas, dizia "já que uso tamancos, ficarei bem". (...) Espero não perder jamais de vista "que se trata de andar de tamancos". Quero dizer com isto que se trata de estar contente em ter bebida, comida, cama e roupa. De estar, em suma, contente com o que têm os camponeses. (...) Aquele que deseja fazer algo de bom ou útil não deve se apoiar na aprovação geral, nem desejá-la. Ao contrário, não deve esperar simpatia ou ajuda de mais do que uns poucos espíritos ou, até mesmo, de pouquíssimos".

"Devemos pintar os aldeões como como se fôssemos um deles, sentindo e pensando como eles. Como se não pudesse ser de outro modo. Os camponeses formam um mundo à parte, e, em muitos pontos, muito melhor que o mundo civilizado".