domingo, 10 de maio de 2009

Por uma vida menos ordinária

Diz a Wikipedia: "O planejamento estratégico é um processo gerencial contínuo e sistemático, que diz respeito à formulação de objetivos para a seleção de programas de ação e para sua execução". Eu não queria começar meu texto caindo no clichê da definição de uma expressão, mas achei importante situar em linhas gerais este conceito que admito não ter know-how suficiente para analisar em mais detalhes.

O fato é que, no meu imaginário, "planejamento estratégico" associava-se a executivos usando laptops em salas vips de aeroportos ou homens de terno perguntando na livraria Galáxia, do Centro (onde eu trabalhei), o preço do livro "A Arte da Guerra". Em nossas mentes binárias, costumamos achar que o que está neste mundo corporativo "Yang" não cabe no mundo "Yin" da criação artística.

Nesta linha de raciocínio, "planejamento estratégico" pode parecer quase um antônimo de "poesia". Mas não é verdade. Um exemplo de que os recursos de geração de riqueza material podem servir para a criação de riqueza estética é a trajetória do artista "circense" Philippe Martin, retratado no filme "O Equilibrista".

Philippe tinha um sonho: andar por um cabo de aço entre o topo das torres Sul e Norte do World Trade Center, a 415 metros de altura. A pulsão não era a dominar o mundo; nem ele sabia explicar a razão para tentar a façanha. De todas as suas preocupações, porém, a ausência de lógica era menor. Ele tinha o sonho e isto era o bastante para mobilizá-lo num projeto que, se poderia dizer, envolveu meses de planejamento estratégico.

O vento, os seguranças, as torções no cabo de aço, a instalação dos cavaletes. Tudo eram "pontos fracos" ou "ameaças" - usando a terminologia do marketing - a serem levados em conta e superados.

Philippe vive no tempo do "Artista da Fome", mas sua total entrega à arte o aproxima mais do trapezista de outro conto de Kafka: "A Primeira Dor".

Sendo francês, talvez ele tenha sido influenciado pelos ideais de maio de 1968 (ocorrido apenas seis anos antes de seu feito). Seu modus operandi lembra o "terorismo poético" de Hakim Bey, que sugere um slogan para ser pichado no metrô: "ENTRE EM GREVE PELA INDOLÊNCIA & BELEZA ESPIRITUAL".

As interpretações são livres, mas gosto de pensar que Philippe fez o que fez para nos mostrar que uma vida menos ordinária é possível.

O World Trade Center foi criado para ampliar o acúmulo de riqueza na maior potência global? Não: foi feito para potencalizar o acúmulo de arte, a maior riqueza global.

8 comentários:

Anderson Costolli disse...

Eu acho os seus posts filosóficos demais para a minha insolente ignorância. Mas vou te dizer que 'viver uma vida menos ordinária' é o que me faz levantar a cada manhã. Sonhos sonhados, sonhos lutados, sonhos conquistados. Gosto de todas essas fases (planejamento). Verei o filme! Já gostei do rapaz! E vc, como sempre, arrasando no texto! Ah! Bjunda!

Gardênia Vargas disse...

Adorei, fofo. Verei o filme em sua homenagem e tentarei levar uma vida menos ordinária... ;o)
besos

Paula Máiran disse...

Passei, Zahar, mais da metade da vida com hojeriza de palavras como planejamento, ainda mais o do tipo estratégico... Então chegou o belo dia em que me tornei, tempos atrás, gerente de um projeto de planejamento estratégico...hahahaha!!!
Mas ainda enfrento uma dificuldade monstra de proporcionar planos aos sonhos. E isso só tem tornado estes sonhos eternos na maioria dos casos....rs
Enfim, se aprendi a respeitar a importância do tal planejamento estratégico pra realização de todo tipo de sonho, aprendi mais ainda a admirar e até invejar quem consegue, mais do que elaborar, realizar de fato um planejamento estratégico... Enfim, Zahar, não vi o filme, mas o seu texto mexeu um tanto comigo... Queria muito mesmo viver uma vida menos ordinária... Mas espero esperançosa não ter de, pra isso, ser exatamente uma expert em planejamento estratégico...rs

Leo Zahar disse...

Parabéns André! Muito bom o texto. Sobre o filme, nada tenho a dizer pois ainda não o vi. Depois te passo um "feedback" (para ficar no jargão empresarial).

Luisa Belchior disse...

Oi Dé,
Brigada por abrir a minha mente a expressao "planejamento estratégico"! Sempre que a lía, tenho vontade de fechar os olhos e dormir, pra nao ter que entendê-la, é como uma mosquinha na frente de algum texto que eu decidi ler. Esse post também diz muito sobre você - centrado no cotidiano, no real, no prático, mas sem menosprezar a importância da arte, do lúdico e do abstrato em nossas vidas.
Bjs!

Luiz Zahar disse...

É, as coisas na vida são assim mesmo, multidimensionais, com múltiplas possibilidades interpretativas. No contato com o real o branco e o preto se dissolvem em milhares de tons de cinza. Acredito que nem mesmo o equilibrista poderia imaginar o significado de se equilibrar perigosamente sobre este imenso "cifrão" que seria derrubado tempos depois num dos momentos mais trágicos deste século. Para ele, talvez, fosse apenas mais um desafio para o qual se preparava. A dimensão mítica que tomaria mais tarde, viria em mais uma das inesperadas viradas da história, que ao contrário do que se supõe -- continuidade, evolução, etc -- está sempre a nos surpreender.

Artur disse...

nhé

Big Tony disse...

Tu tá virando mais neoliberal que eu...
Maldito envelhecimento: ou você fica impotente, ou vira casaca.
"You become what you hate or you hate what you become."
Jundas!