terça-feira, 11 de agosto de 2009

Carta ao Tom 2009

É o avesso da bossa nova, um lugar sem vista para o Corcovado. É a antítese do eixo Ipanema-Leblon. Fica a 20 quilômetros da Rua Nascimento Silva, e se você tomar este ponto de partida perceberá como no caminho as pessoas vão mudando de cor, forma, volume. Para trás vão ficando os músculos estalando sob o sol, os doces balanços, o barquinho a deslizar no macio azul do mar. Até que na sua frente surge um menino preto, esquálido, vestindo uma camisa rota que lhe chega ao joelho. Ele se aproxima e tenta te vender um celular. Mais insistente do que o funcionário de uma operadora de telefonia, fica horas no meio das duas pistas da Avenida Dom Hélder Câmara, gesticulando com o aparelho. O visor brilha na penumbra. Vão chegando outros meninos, com o mesmo aspecto de carcaças imundas. Têm 11, 12 anos e histórias de abandono, maus-tratos e sobrevivência capazes de lacerar os teus ouvidos. Subitamente um rapaz passa correndo com uma pistola 9 mm prateada. O dia foi de operação policial e o clima permanece tenso, mas ninguém mostra assombro com a presença do homem armado. Reunidos, os párias, expulsos da favela por bandidos ou familiares, dão a impressão de que se está em um filme de mortos-vivos e que vão estrangulá-lo se você não começar a dar tiros de escopeta. Mas sua presença ali, a poucos metros, é solenemente ignorada por eles, que seguem diretamente para trás de uma caçamba de lixo onde só há escuridão. Minutos depois, as primeiras centelhas começam a surgir e permitem divisar quatro ou cinco garotos de cócoras formando um círculo com copos de plástico nas mãos. Quem não faz parte daquele aparente ritual xamânico aperta o passo, com medo. No fundo, em um boteco, adultos conversam animadamente, como se aquela situação já estivesse incorporada à paisagem. O tempo passa, rodinhas se formam e se dispersam velozmente. Garotas na idade da menarca começam freneticamente a oferecer serviços sexuais por cinco ou dez reais. Outros meninos já dormem dentro da caçamba de lixo. A barra começa a pesar demais e você decide que é melhor ir embora.

7 comentários:

Mariana Moura disse...

Lindo e denso. Assim como o seu interior. Bem escrito, detalhado... quase dá pra ver todo o cenário e os personagens. Well done, André Zahar.
Keep going, keep walking.

Paula Máiran disse...

Você é assustador! Estive com você nesse lugar? Parece que sim... Graças a sua descrição certeira, cruel até, do cubismo da nossa paisagem autofágica paisagem. Vamos nos entregar à loucura, beijo na boca, colo da mãe, divã da analista, tomar todas e que tais??? Tudo isso é humano, mas suspeito de que a
vida exija muito mais...E com uma certa urgência...

Tonhão disse...

Incorporando um leitor reacionário do Globoonline:

"Peidão!
Devias ter ficado lá para aplicar um 'jorgite' nesses pivetes safados!
Se você não faz agora, eles vão crescer, comprar fuzis, estuprar sua mãe e não vão nem poupar a bundinha do seu avô no cemitério!
Morte a todos eles!
Remoção de todas as favelas já!"

Tonhão disse...

Você é um gênio!
No mínimo, eu alento para amigos "revolucionários" e "comunistas".

Anônimo disse...

São os meninos do Rio provocando arrepios de medo. O jeito é fugir e flertar em Ipanema.

Paula Máiran disse...

Mas Iris, fugir pra onde mesmo? Não estaria na hora de a gente pensar em novas estratégias de lidar com a realidade? A fuga, o engaiolamento, a medievalização urbana, segurança privada... o tempo tem provado que nada disso surte outro efeito a não ser o incremento dessa cultura de violência...

Anônimo disse...

Sinto um pouco de esquizofrenia no seguinte refrão: 'Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Cidade maravilhosa. Coração do meu Brasil'. Um mundo Zona Sul. Sem Cantagalo, sem Vidigal e sem Pavão-Pavãozinho, é claro. E se o coração do Brasil é isso, não quero nem saber como é o intestino desse País. E digo mais: para morar aqui, tem que AMAR mesmo. Por que o amor tolera os defeitos. Amar. Até que a morte nos separe. Seja ela de forma natural ou com a ajuda de um fuzil. O que também já se tornou natural na realidade carioca.