Há quem tenha medo de escuro e há quem tenha medo da luz. E também há quem tenha medo de ambos. Como assim? Explico-me. A vida é mais ou menos como aquele jogo "Age of Empires", em que a medida que o jogador se movimenta por um mapa escuro, os caminhos percorridos vão se tornando claros. Mas, fora do videogame, o medo mantém muita gente fora do jogo, em "pause".
Viver é trilhar uma jornada que não se sabe aonde vai dar. Uma experiência que pode ser interrompida a qualquer instante e sobre a qual o nosso controle é limitado. Um caminho sem mapa, com duas dimensões - exterior e interior - repletas de luz e sombra. Um processo incerto como singrar por mares nunca dantes navegados.
Tatear pelo escuro nem sempre é a coisa mais prazerosa do mundo. Explorar o mundo e os subterrâneos da alma pode fazer a pessoa sentir-se como Robinson Crusoé. Encontrar luz pode gerar uma sensação de agressão à retina. É o risco de vida, voltaremos ao assunto mais adiante.
Maquiavel dizia que metade do destino de um soberano depende da virtú, ou seja, de suas próprias habilidades, e a outra metade é decidida pela fortuna, o fator imponderável que você pode chamar de sorte, destino, acaso, deus ou mercado. O mesmo vale para todos nós, soberanos de nós mesmos.
Planos são importantes, mas eficazes num campo limitado. Fora desta zona de conforto, há uma imensa margem de "erro" e às vezes, em vez de exclui-la do cálculo como uma variável irrelevante, o melhor a fazer é contar com ela, ter fé.
Aqui cabe uma observação. Fé não é ausência de razão, muito pelo contrário. A fé só é sólida quando baseada em autoconhecimento. A pessoa que se conhece, sabe qual é a sua jornada no mundo e tem noção do que é capaz de aguentar pode lançar-se no desconhecido com certa tranquilidade de que não ficará desamparado. Corre um risco calculado.
Mas precisamente ai está o grande problema: conhecer-se.
Cagar regra é fácil, o difícil é reiventar-se, mudar para ser fiel à própria essência, contrariar expectativas dos outros, libertar-se de bloqueios sedimentados. As sombras dentro e fora de nós assustam. A luz nos atrai para fora da caverna - citando o mito de Platão - mas ao mesmo tempo nos parece nefasta na medida em que aparentemente nos separa de forma indelével dos colegas de trevas. Estes possivelmente reagirão com olhares cheios de estupefação e censura.
Diante de um processo que se choca com resistências internas e externas, nem todos têm coragem - ou apoio - para fazer a travessia. Por isto permanecem estagnados num estágio psíquico subdesenvolvido, buscando se dissolver na massa.
Para estes existem a televisão e as micaretas.
3 comentários:
Senhor, tenha piedade daqueles que escolhem não enxergar, calar-se ou omitir-se diante dos desafios que a aventura da vida oferece.
Senhor, perdoe aqueles que constroem argumentos supostamente inteligentes para justificar a sua estagnação e alienação voluntárias diante da vida.
Senhor, ilumine as vítimas do auto-engano.
Que o Senhor se compadeça de todos nós porque mesmo os que parecemos os mais firmes, audazes e corajosos temos nossos momentos de covardia e nos tornamos cegos, surdos, mudos ou paralisados diante do medo do imponderável.
eu prefiro a escuridão. tenho passado a vida lutando para me conhecer nessa mesma falta de luz, mas depois de tanto tempo atrás da tv (e não da micareta), é difícil... boa reflexão, me enche de orgulho
O Tolkien diz um coisa muito interessante no Silmarillion: só na escuridão e nas sombras que novas criações podem surgir. Acho que mais do que uma busca por sair das sombras, a vida é uma busca por saber equilibrar a luz e a escuridão dentro de nós mesmos.
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