Não há nada mais conservador do que o uso do choque como proposta estética e política, tendência manifestada em obra "hiperrealistas" que se propõem a mostrar a realidade "nua e crua", sem metáforas, plots ou retoques photoshopescos.
Figuram nesta categoria filmes como "Ken Park", com suas cenas de masturbação, genitálias masculinas e espancamentos, "Amarelo Manga", com seu tiro esportivo em cadáveres e empalações com escovas de cabelo, entre outras obras.
Importante frisar que nem todas modalidades de sadismo artístico derivam do naturalismo. Algumas flertam com o surrealismo, com o "teatro da crueldade" etc., mas nestes casos não há pretensão de se abrir nas telas, palcos ou páginas de livro uma janela para a realidade objetiva.
O mundo não é - e nem deve ser - um Paraíso asséptico, eugênico, e, da mesma forma, à arte não cabe buscar apenas o bom e o belo. Mas aqueles que carregam nas tintas para mostrar o sujo e brutal como sendo "A" verdade, devem parar de posar cinicamente como malditos e contestadores.
O embrulho no estômago, longe de gerar consciência crítica, só reforça estigmas e preconceitos. A repulsa é muito menos libertária do que a identificação.
Veja os exemplos citados: ao reforçar a visão dos pobres como seres animalescos, "Amarelo Manga" favorece o discurso de "barbárie vs. civilização" e lembra até a forma como judeus eram tratados nos filmetes de propaganda nazista.
Já "Ken Park" relaciona o sexo com tantas perversões que funciona muito bem como libelo do neoconservadorismo americano.
A discussão poderia se estender muito mais, mas, neste momento, prefiro recorrer aos versos para tentar me fazer entender melhor.
***
Para fazer um retrato que choque a burguesia*
com um prato cheio de fezes
em seguida ponha ali
qualquer coisa grosseira
qualquer coisa complexa
qualquer coisa feia
qualquer coisa útil
para um travesti
depois ponha a câmera numa lixeira
em um beco
em uma viela
ou em uma favela
se esconda atrás da lixeira
sem dizer nada
sem se mexer...
É possível que o travesti chegue rápido
mas ele pode levar longos anos
antes de se decidir
Não perca a fibra
espere
espere se ele levar longos anos
a rapidez ou a demora da chegada do travesti
não tem qualquer diferença
para o êxito do filme
Quando o travesti chegar
se ele chegar
filme em plano-sequência ao som de death metal
espere que o travesti entre na cela
e quando ele estiver lá dentro
feche lentamente o ângulo no rosto dele
depois
extraia um a um todos os seus dentes
tendo o cuidado de não se sujar de sangue
Filme em close o prato de fezes
separando a parte mais repugnante
para o travesti
filme também as paredes pichadas e a umidade do ambiente
a poeira incandescente
e o barulho dos fungos no calor da noite
e depois espere que o travesti se decida a comer
Se o travesti não comer as fezes
É um mau sinal
sinal que a plateia sairá pra jantar
mas se ele comer as fezes é um bom sinal
sinal de que seu nome brilhará
Então você retira delicadamente
um pouco da merda do prato
e escreve na parede os créditos finais
* paródia de "Pour faire le portrait d'un oiseau"
3 comentários:
Quem afinal resolveu que gosto não se discute? Devo admitir que tem muita arte feita nas bordas, nos limites, que assume a missão de sair de uma visão superior de arte pra se questionar como tal, e que é fundamental pra que possamos ter as definições necessárias ao afastamento do relativismo total (que aparentemente ela propõe). Mas daí a alguém me convencer que uma privada no meio de uma sala é mais interessante que uma pintura do Rembrandt tem um caminho enorme! hehe Adorei a discussão. E gosto bastante do modo como você a expressa. #9. Bjs
Interessante! Acho que nesse balaio dá para colocar Brüno, com sua piroca falante e os mexicanos usados como móveis...
E eu te chamava de adolescente... :) Sensacional! Isso aí. E fico com o Leo no tocante ao "Brüno", sendo que, talvez, o "Pânico" - na imitação do "JackAss" e na sua freudiana perversão em fazer a Sabrina Sato e outras gostosas comerem animais rastejantes - pode entrar na lista de "chocantes" que não chocam ninguém por não ter o que dizer.
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