sábado, 8 de maio de 2010

Viver nos outros vs. Viver com os outros

Certa feita, um unicórnio foi capturado em um reino não muito distante no tempo e no espaço. Rapidamente, o povo se juntou para ver o animal, exibido em praça pública. Diante da multidão, o rei foi o primeiro a discursar, cumprimentando o caçador pelo feito e afirmando que aquele momento era o marco de uma nova e venturosa fase para toda a região. Um feriado de cinco dias foi decretado para que todos pudessem ver e apreciar o ser mítico.

A notícia se espalhou e, no segundo dia, um esquema especial de segurança teve que ser montado para organizar as filas, pois a quantidade de pessoas, agora também provenientes de cidades vizinhas, superava todas as expectativas. Como era de se esperar, a reação do público pendia do espanto dos que jamais haviam visto espetáculo tão belo à incredulidade dos que desconfiavam de uma farsa bem montada.

Multiplicaram-se também os comerciantes, que vendiam supostos chumaços da crina e do rabo do unicórnio como talismãs. Os estudiosos, porém, foram os primeiros autorizados a tocar no chifre do ungulado. Dele recolheram amostras para análise mais minuciosa. Além disso, tomaram notas sobre cada milímetro do bicho, na tentativa de reunir elementos para identificar ancestrais e classificá-lo na árvore da vida.

No terceiro dia, saciadas as primeiras curiosidades, os jornais mudaram o enfoque: entrou em pauta a sexualidade do unicórnio. Nos mais conservadores, a discussão restringia-se à sua possível esterilidade; os tabloides populares devassavam sem pudores as práticas copulatórias e fomentavam as especulações mais pueris. Um deles oferecia alta recompensa para quem conseguisse capturar um unicórnio fêmea para promover o acasalamento.

No amanhecer do quarto dia, surpreendentemente, o chifre do unicórnio desapareceu sem que ninguém tivesse visto. Debates acalorados foram travados para explicar o fenômeno. Firmou-se no senso comum a versão de que tudo não passara de alucinação coletiva. Todos estudos foram desacreditados e aqueles que as traças não consumiram foram considerados heréticos e, como tais, irreversivelmente destruídos.

Ah, já vinha me esquecendo. No quinto dia, o unicórnio sem chifre que já não despertava o interesse de ninguém foi libertado e passou a viver entre cavalos e jumentos, já não mais como figura pública.

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