É preciso abandonar qualquer discurso que trate a moral de forma abstrata. Falar de Bom e Mau "em tese" é cair num platonismo pueril de partir o coração, imperdoável se você passou dos 30 ou está perto disso. O que vale mesmo nesse mundo é a experiência concreta, e nesta, muitas vezes, as boas intenções saem pela culatra. Você sabe disso. Ou deveria saber. Ou você acredita mesmo que um bom cidadão é aquele em que o autodomínio cala as necessidades vitais? Que um bom amigo é alguém que não aponta as suas falhas? Que a boa educação é a que disciplina o sujeito para o convívio social? Se pensa assim, em tese você está certo. Mas como ser humano está muito diminuído. Lembre-se que os maiores crimes da humanidade foram cometidos com as melhores intenções. Algozes de gênios, crucificadores, torturadores de todas as nações provavelmente foram recebidos em casa à noite por esposas zelosas e filhos que lhes tiravam os sapatos. Provavelmente dormiram o sono dos justos com a sensação de ter mitigado, no fio da navalha, algum tipo de petulância contra o status moral vigente. Para alguns destes verdugos, outros homens morais ergueram que só foram derrubadas quando uma nova moral, igualmente metafísica e funesta, varreu a antiga. Ora. A única moral tolerável é a que emana das próprias relações sociais; do respeito ao outro como OUTRO. Mas infelizmente a regra é exigir que o outro seja oco para que faça ECO.

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