O livro "Mafuá - Autoajuda para mamutes", feito em parceria com o amigo e artista plástico Leo Sales e lançado em 2012, continua a me dar orgulho. Vi hoje que já está disponível para compra nos sites das livrarias Saraiva e Cultura. E estando longe de qualquer lista de best-sellers :), está perto de pessoas muito especiais. Algumas, inclusive, nos ajudaram a organizar os lançamentos no Rio, João Pessoa e Ceará. Outras se aproximaram da gente justamente nesses (re)encontros inesquecíveis que renderam fortes abraços e papos e momentos muito muito belos. Para não falar o contato com outros autores, poetas e artistas.
Outros lançamentos de "Mafuá" não estão descartados, mas agora é a vez de dar um pouco de atenção a outro filhote que chegou às prateleiras agora em março. "O último livro do fim", uma coletânea internacional de contos sobre o fim dos tempos, inclui uma contribuição minha. É o inédito "Estudo para um mundo só".
Não vou falar muito sobre o conteúdo, para não direcionar a leitura.
Há alguns dias, revirando forçosamente algumas coisas antigas, encontrei a folha de caderno em que escrevi a primeira versão do conto, na biblioteca da Universidade Federal da Paraíba, em meados de novembro do ano passado. Os últimos retoques foram dados durante a viagem ao Ceará.
É sempre interessante reencontrar estes fósseis de sentimentos. Eu lembro exatamente de onde estava -e do que sentia- quando escrevi cada poema do "Mafuá", p.ex.: "Cinética" (Cinelândia/CCBB), "Mirada budista" (praia de Copacabana), "Ontogênese" (Parque Guinle), "Ídolo" (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ)... e com os contos, o mesmo. Encontrar rascunhos é sempre uma viagem no tempo, um retorno para uma fase vivida e superada (ou não) dessa ontogênese nossa de cada dia, desse parto de si mesmo que dá um trabaaaaalho...
Como a ontogênese recapitula abreviadamente a filogênese - tá aí o Terrence Malick que não me deixa mentir - estes manuscritos antigos às vezes mostram um resquício de cauda numa percepção mais rude, ou uma garra sem pelica nas adjetivações... e, provavelmente, quando eu reler este mesmo texto (apenas para registro: escrito em uma casa no Poço da Panela, no Recife) daqui a um tempo vou ter impressão semelhante. Sinal de que terei passado para outro estágio da evolução.
Por que eu estou falando isso? porque às vezes é auspicioso meditar sobre o fim. Daí a importância, para mim, do convite feito pela Editora Baluarte. Foi este o significado da proposta, mais do que imaginar o fim do mundo, da vida etc., o fim das coisas, das fases, que é também início de coisas, fases. Fim que deixa às vezes um travo amargo, ou um gostinho de quero mais. Fim que às vezes não percebemos, mesmo quando tudo ao redor vai ganhando aspecto de sombra.
A pós-modernidade contribui para firmar a ideia de um presente constante, para reduzir os espíritos das eras a meros estilos. Virtualmente não há mais fim, só Ctrl C + Ctrl V, pastiche, cosplay. Mais ou menos o que fazia o pai do Buda ao mantê-lo, durante a infância, num castelo alheio a tudo que era perecível e mortal. Na ordem do dia de alguém que busca a sabedoria, entretanto, às vezes é importante refletir até que ponto o fim, e não os fins, dá sentido e justifica os inícios e os meios.
FIM
Nenhum comentário:
Postar um comentário