segunda-feira, 27 de março de 2017

Esboço de uma conversa



ENTÃO você vai dizer
que toda essa ira
é a pose verbal mais abjeta
e o meu fastio é indecoroso
para início de conversa.

A golpes de flores empalhadas,
arrancará os caracóis dos meus cabelos
dizendo que não velam nada,
nem revelam segredos.
(assim como a minha poética.)

Fará sete cortes no meu banzo
derrubando as louças, o leite
e a minha lente
de examinar domingos.

Me trancará no quarto
e fincará no meu peito
um punhal doce
de lembranças sublimes.

E eu flutuarei sobre o colchão,
dispnéico, no entardecer elétrico
desse nosso outono.

Por fim, você me agarrará
com unhas amoladas e, num golpe final,
arrancará
obtusos prantos
de meu carbono tristonho.

Desenganado,
meditarei um tanto:
o tempo de um trago.

Refeito, vou e lanço
a melhor estratégia
de min`alma hipocondríaca.

Abro fogo para todos os lados
com comedimento planejado,
arrazoando a sala, a servidão, o quarto.


E com discurso afásico,
lhe aturdo e sumo

na fumaça do cigarro.

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