quinta-feira, 10 de março de 2011
São Bento
Um mundo de sonhos apodrece na poça onde vejo o seu nome. Ali, os filhos esquecidos em vidas acidentais aguardam os ônibus de seus bairros, igualmente acidentais, no silêncio lacrado do mosteiro que só o pôr-do-sol romano coloca em perspectiva. Ali expiamos a culpa, observados por anjos folhados a ouro. “Estamos todos na casa de Deus, barca de Pedro e porta dos céus”. Céus! Somos reféns de voz fina, aguardando o resgate ou algum feriado que exume a nossa solidão. Purgamos em cerimônias tristes que sucumbem à luz de um dia claro. A comunhão celebrada com lauto banquete, os olhos rasos, ciclos que se passam diante dos homens de batina. Homens que não estão no tempo e não perecem como os da Rua Dom Gerardo. Homens impenetráveis, que comem só mingau e chá e arrastam carcaças centenárias que não lhes pertencem. O mistério da fé que me dá asma, que ritualiza a vida dos meninos. A alma imortal habita a carne fraca exposta em banhos coletivos. O temperamento mais cândido vela o estigma do pecado original, esse crime que precisa ser explicado e cobrado em avaliações. A nota vem em boletins rosas, recebidos com apreensão e, como sempre, silêncio. Mesmo quando há algazarra. Anotações em cadernetas, feiras de ciência, métodos fora de uso para o ensino da matemática, as unhas disciplinadoras da coordenadora. Tudo é parte de um plano maior. Na pedagogia ortodoxizante do medo, tudo é coberto por um manto. Há um desígnio. O silêncio que tudo cobre é um feixe de temores. Medo do que se fala na reunião de pais, medo até de atrasar a devolução do livro da Biblioteca. Os olhos estão em toda parte, condenando tudo que foge à mudez das estátuas dos santos. Sempre há algo a confessar, mesmo quando a nossa própria vista não alcança. Os olhos sobrenaturais escrutinam os recônditos das almas dos meninos de uniforme azul, seja no refeitório, na casa da bruxa ou nos paredões. Em sala de aula, o companheirismo dos soldados diante do Leviatã.
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4 comentários:
Ahhhhhhh!!!
Como somos irresponsáveis, como temos a aprender. Como vamos ensinar... sou pai!
Salve Artur! Temos sempre muita coisa pra aprender com os outros... Por isso da próxima vez, quero ouvir você falando! Nem que o encontro termine às 4h da madruga!! :) Abração
Saudades do Colégio de São Bento!
Zahar e Artur, quem são vocês, ex-beneditinos?
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