segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fé pública


“Para levantar não é preciso dignidade”. Com este insight - anotado num caderno que mantém sempre ao lado da cama para registrar os seus sonhos - Otávio despertou naquela terça-feira, já sabendo como terminaria o dia. Meteu-se num terno e foi trabalhar levando consigo o mesmo corpo que visitara Paris, perdera-se em Veneza e dormira durante vinte e dois anos ao lado de Raquel. O dia não lhe reservava nada épico: duas audiências, reunião, almoço com um cliente, sessão de julgamento na Oitava Vara Criminal. Se tudo desse certo, à noite brindaria a um estelionatário absolvido, ou pelo menos, beneficiado com o direito a recorrer em liberdade.

Naquela manhã, um jornalista ligou pedindo acesso a um processo de grande repercussão que corria em segredo de justiça. Seis padres de um colégio tradicional acusados de pedofilia. A fase dos depoimentos começara naquela semana, mas fora das audiências os familiares das vítimas e a Igreja se limitavam a divulgar notas oficiais protocolares. A imprensa havia batizado a ação da polícia como "Operação Juízo Final". Otávio convidou o repórter para tomar um café na quinta-feira à tarde, com a promessa de dar em off todas as informações que pudesse sem se comprometer. Pela janela, viu que chovia no Centro do Rio. A Glória, secretária que dava para ele e pro Júnior, certamente lhe pediria carona.

Júnior era o sócio e ex-colega de faculdade de Otávio. O escritório tinha ainda um patrono, o Souto. Principal acionista, e pai do Júnior, ele abrira a sociedade com dois advogados já falecidos. Abaixo deles, havia quatro advogados e seis estagiários.

Nos dias em que Otávio sentia raiva daquelas pessoas e de si mesmo, ele caminhava até o Largo do São Francisco, para observar os estudantes deixando o Instituto de Filosofia, e os mendigos e loucos da praça. “O que eu nunca fui e o que eu nunca serei”, pensava, com sentimentos de orgulho e inveja.

Mas neste dia seu ânimo pendia para a autoindulgência.

Assim que chegou, Junior veio cumprimentá-lo.

- Dia importante hein!

- Como sempre, Doutor.

- Estamos contando com você.

- Podem contar.

- E o caso da Igreja?

- Tudo em ordem. É mais fácil o diabo rezar uma missa do que o nosso cliente sair algemado.

- A imprensa tem batido demais.

- Nosso cliente sairá como vítima. Quer apostar?

- Não preciso apostar, tenho fé no Direito.

- Amém.

Júnior deixou a sala. Sozinho, Otávio voltou a contemplar a chuva.

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