Como não podia deixar de ser, os dois viviam a discutir. O homem dizia para o irmão: "Você devia se ocupar, parar de andar com esses maconheiros, achar um emprego. Dessa forma nunca vai ser nada na vida e vai perder tudo que nossos pais conquistaram". O surfista, por sua vez, falava em Osho, Reich, Kerouac... liberdade. "Nas minhas viagens, nas ruas, conheço as pessoas mais simples. É nelas que eu encontro a sabedoria que eu preciso para a minha vida", argumentava.
Um dia, o homem assistiu num programa de TV uma reportagem com especialistas indicando os benefícios do banho de mar para a saúde. Então deu crédito ao irmão pela primeira vez: resolveu atravessar a rua para dar um mergulho.
Mas, para não dar o braço a torcer, não avisou ao vagabundo surfista.
Entrou no mar, sentindo a água morna e salgada aos poucos cobrindo seu corpo. Quando já não dava mais pé, lembrou-se:nunca aprendera a nadar. E, para piorar, como tinha muitas moedas no bolso, começou a afundar e se afogar.
As pessoas da praia, percebendo o que se passava, começaram a gritar por socorro. O irmão surfista, que estava descansando depois de pegar onda, num círculo de amigos, foi resgatar aquele afogado, sem saber que era o seu gêmeo que estava morrendo.
Ao perceber o que estava acontecendo, ordenou: "deixe as moedas! esvazie os bolsos para conseguir flutuar! Eu posso te resgatar!". Mas o homem não deu ouvidos: "você está querendo que eu abra mão do que eu conquistei!? você só fala isso porque quer me ver perdido e sem futuro como você! Jamais!". O surfista ainda tentava argumentar: "é a única maneira de você se salvar!". Mas o homem não conseguia imaginar uma outra vida sem sua coleção de moedinhas. Negou a mão que o irmão lhe estendia e entregou-se à morte.
Depois disso, seu testamento foi aberto. Atendendo ao pedido registrado num documento com várias planilhas anexadas, seu corpo foi cremado. E as cinzas, conforme a sua vontade, atiradas no oceano.
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