sexta-feira, 19 de junho de 2015

Esperança

Pichadores escrevem "Jô Soares, morra" por causa de uma entrevista. Sim. De uma entrevista. Agressão a petistas no Congresso do partido. Menina de 11 anos com roupa de culto apedrejada e insultada no Insituto Médico Legal. Ialorixá de 90 anos morta na Bahia após agressões de fundamentalistas religiosos. Manifestantes feridos em confronto provocado por machistas durante a Marcha das Vadias. "Pai Nosso" rezado na reunião plenária da Câmara, regida esta por um presidente investigado por corrupção que afirma não ter "nenhuma preocupação com nenhuma manifestação de qualquer grupo em nenhum lugar". Avanço, sem discussão madura com a sociedade, de propostas que impactam na vida de muitos, como a redução da idade penal. Trabalhadores haitianos humilhados por um dito nacionalista. Ex-ministro hostilizado quando acompanhava a mulher com câncer num hospital. Um "filósofo" que sugere que se atire na cara dos adversários. Intolerância. Intolerância. Intolerância. De todos os lados. Religiosos, coxinhas, esquerdistas, parlamentares, militantes… todos chamando para a briga. Polarizações. Corda tensionada, conflitos sem freio nem contrapeso. Pequenas faíscas provocando grandes combustões. E uma sensação de falência, cansaço, tensão… 2013. Há dois anos era por vinte centavos: aumentaram 45. Era contra a corrupção: vão torná-la constitucional. Era por Educação de qualidade: pretendem encarcerar a juventude. Era pela Reforma Política: propõem diminuir a participação da sociedade e aumentar a dos grandes patrocinadores de campanhas. Quando foi mesmo que pedir votos dentro de igrejas se tornou moralmente aceitável? Quando passamos a aceitar o coronelismo religioso? Ulysses, Covas, Brizola, Luiz Inácio, Fernando Henrique… há duas geração atrás, com todas as divergências políticas, o espírito republicano prevaleceu e conseguiu-se poupar uma geração, a minha, de tempos sombrios… travar o gatilho do fascismo. O fasciscmo MESMO, que agora ronda o Brasil, este país que está inteiro no Terra em Transe. "O abismo está aí aberto! Todos nós marchamos para ele. Mas a culpa não é do povo! A culpa não é do povo! A culpa não é do povo! Mas o povo sai correndo atrás do primeiro que lhes acena com uma espada ou uma cruz". Violento, violento é o Estado. Sua grande tirania é o que fermenta o desejo cego de vingança. E ela está nos coletivos abarrotados, no sarro forçado, no esconder o celular para não ser roubado, nas reintegrações violentas de posse, nas violações da lei por legisladores patrimonialistas, nas cotas que os escritórios de advocacia possuem junto aos juízes, no sistema de castas para clientes dos bancos, nos ajustes fiscais que penitenciam os mais pobres, na morte indigna na fila do SUS, nas grávidas de 14 anos. E, no entanto, o Estado somos todos nós. Em tempos como este, sombrios, me agarro ao Brecht ("também o ódio à baixeza deforma as feições"), aos poetas e ativistas que percebem que o Imaginário é sem fronteiras e que "são demônios os que destroem o poder bravio da humanidade" (SCIENCE: 1994). Agarro-me aos mais velhos que conseguiram se depurar e extrair alguma sabedoria de sua vivência (não são todos). Alguns amigos meus não conseguem prever outra coisa que não seja um conflito extremo, pesado e devastador para, então, a humanidade voltar a si. Eu olho para mim e me debato entre um pessimismo atávico, uma consciência difusa de classe a superar e o desejo de proteger os que amo e de amar mais plenamente. O Gigante acordou e mostrou-se um horrendo Leviatã. Ou, mais precisamente, um Moloque. Terá sido sempre assim? Com certeza já estava escrito na nossa bandeira. Ordem e Progresso não é Amor e Humor, não é Criatividade e Liberdade. Mas se tem sido assim, e chegamos nesse ponto, então é preciso resistir, sonhar alto e acreditar que o Estado possa ser refundado em novas bases. Não será fácil. As derrotas pesam. Por outro lado, não faltam exemplos inspiradores. Na pior das hipóteses, resta a esperança de que o gatilho, ainda que seja apertado e desencadeie seja que lá que página infeliz nos reserve a história, venha a disparar também algo de inevitável e potente dos nossos próprios seres. É uma esperança bem estranha. Ainda assim, uma esperança.



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