terça-feira, 15 de setembro de 2015

Carta aberta #1

Houve um tempo, recentemente, em que voltei a enviar cartas. Enviei-as para amigos do Rio, do Ceará, NY... Isso, somado ao fato de que também escuto vinis e faço fotos com câmera analógica, indicaria um certo conflito com um tempo de instantaneidades babélicas? Talvez. Escrevo neste momento em um computador, e ao terminar a frase anterior, cliquei na outra aba do navegador, para buscar no facebook um poema recomendado por um amigo que mora em Filadélfia. Por aí você tira. O meio é a mensagem. Fato é que os recursos analógicos e de maturação mais lenta têm essa propriedade de nos induzir a uma seletividade maior. Um filme de 36 fotos te fará escolher melhor cada ângulo, irá apurar o teu olhar. Uma carta manuscrita te fará expressar-se com mais precisão do que um meio em que se pode apagar e reescrever (como este). Um vinil te garantirá uma audição mais coesa. Enquanto escrevia este parágrafo, resisti ao impulso de entrar no Youtube para rever uma frase que o Zé Celso fala no começo de um documentário, que é justamente sobre a escolha de transgredir o tempo, ou algo assim.

Minha amiga e poeta Paula Máiran, uma das destinatárias dessas cartas, postou recentemente, no Facebook, um poema que fala que o tempo não passa, nós é que passamos por ele. Eu não saberia me explicar melhor. Por exemplo - e aqui não estou fazendo poesia, mas prosa - encontro em escritos muito antigos respostas para angústias contemporâneas. Por quê? Porque tudo é contemporâneo. Não houve o tempo do meu bisavô e o tempo de agora. O que houve, e há, é gente lutando pela existência, sempre. Gosto de pensar que Leonardo da Vinci foi contemporâneo de Torquemada, o que mostra que o tempo é um senhor bem democrático, no mínimo.

Sendo assim, a poesia, para mim, é um desses canais que nos permitem transcender as percepções ilusórias e, nisso, se aproxima da meditação. Aedos, profetas, trovadores, poetinhas têm essa capacidade de falar com a gente de forma presente, nunca pretérita. Uma das impressões que eu tinha quando lia "A Gaia Ciência" nas minhas horas de almoço era que o Nietzsche -que foi poeta- estava ali comigo no jardim interno da Santa Casa de Misericórdia. Ou que eu não estava ali. Quando li os primeiros poemas de Baudelaire, sua voz era perceptiva para mim (e também para um amigo, que levou o livro emprestado enquanto eu dormia, por ter impressão semelhante). Da mesma forma, quando ouvi, em vinil, o Soneto de Meditação IV do Vinícius de Moraes, desci com ele para me fundir ao mar e me esbater numa rocha.

Pouco depois que me mudei para o Recife, encontrei com uma amiga do Rio que tinha planos de se mudar para cá para viver com o então namorado dela. O sujeito percebeu em mim algo da ruína daquele momento e me estendeu a mão. Era um cara muito sensível, se você quer ter uma ideia de como ele era, pense no Belchior. E me contou de suas viagens, que tinha dormido no quarto em que havia se hospedado Jack London (se não me engano no Havaí) e que, ao ir para Paris, viu -realmente viu- rolarem as cabeças de Luis XVI e Maria Antonieta. E eu me impressionei. Como poderia viver alguém com um grau tão elevado de sensibilidade? Eu sempre achei que sensibilidade era um troço que a gente devia esconder do resto do mundo, sob pena de ser posto à margem. Que a gente tinha que ter estratégia para não ser devorado pelos canibais ou queimado pelos Torquemadas da vida.

Uma parte dos artistas que eu conheço de alguma forma habitaram meios que lhes favoreciam, outros simplesmente tiveram muito culhão. Certamente fui privilegiado por ter tido contato com muitos livros e filmes desde cedo, e estimulado por uma boa formação humanista. Ainda assim, sempre me senti meio estranho no ninho. Principalmente no colégio, entre os meus "contemporâneos". Houve uns dois anos da minha vida, 1997 e 1998, em que eu praticamente não me comuniquei com ninguém. Vivia trancafiado em mim - e, por isso, hoje, posso falar desse momento atual como uma Perestroika. Depois as coisas melhoraram um pouco, fiz amigos, viagens, me apaixonei, levei pé na bunda etcétera. E tive outras fases daquelas, em que me disseram que eu estava agindo feito um Gerald Thomas. São ciclos de expansão e retração, e, a medida que o tempo passa, entendo e lido melhor com eles. No momento atual, estou novamente numa fase de expansão.

Meus ídolos sempre foram os iconoclastas, aqueles capazes de entrar e sair das estruturas, e os outsiders. Acredito que se pode sentir identificação e colher momentos belos e impactantes mesmo em ambientes áridos. Quando trabalhei no Ministério Público, por exemplo, admirei profundamente um procurador de justiça que, ao receber uma homenagem, citou Sepultura ("Recuse! Resista!"), falou sobre sua escolha por não fazer concessões e ironizou todas as formalidades e vaidades da classe e da ocasião. Era um sujeito cabeludo, todo tatuado, com cara de Hell's Angel. E por que foi homenageado? Porque era simplesmente de uma competência muito acima da média. Então eu vi um pouco do que poderia ser o meu caminho.

Por sinal, nunca pensei em termos de objetivos. E esse insight eu tive recentemente. O importante para mim sempre foi o caminho. Não planejei vir para o Recife. Foi a solução encontrada dentro das possibilidades e dificuldades geradas por minhas próprias escolhas. E tudo está se en'caminhando. Voltando ao Zé Celso, "o amor é uma energia muito forte, quando ele bate destroi impérios e famílias". Descobri isso na carne, e constatei que só o amor, com liberdade, é capaz de potencializar aquilo que você é. Essas escolhas têm um preço (não quero falar disso agora), mas trazem um aprendizado que tem valido a pena pagar. E já tenho dois livros de poesia praticamente prontos sobre tudo isso.

Mas voltando à prosa, como já expressei anteriormente, Recife me ensina muito sobre a luta pela existência. Acredito que todo mundo com algum grau de nomadismo sabe o que é estar num ambiente novo. Se você der mole, deixa de existir para o mundo. Por isso, nos cabe estar abertos e promover encontros. Então faço meus saraus, vou a reuniões políticas, frequento minhas aulas de circo, me coloco intensamente no trabalho, proponho parcerias, deixo outros projetos pela metade... e assim vai se passando o tempo que na terra me foi dado. Tenho a vida perfeita? Não. Muito longe disso. Mas eu juro: busco vivê-la com mais generosidade. Sei que muita gente vai ter críticas a mim, pelos mais variados motivos, mas eu tento perceber mais o outro, ter mais empatia, rever meus preconceitos e ter menos preguiça de me colocar no lugar do outro. Nem sempre consigo.

Quem acha que o mundo é mau, talvez apenas não tenha encontrado as pessoas certas para estar perto. Ou então não tenha se permitido mostrar o que traz por detrás da máscara que veste para enfrentar o mundo. É fácil? Não. É perigoso? Sim. Mas você não está só. Como diz o Ave Sangria, "não se enterre na solidão!".


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